Entrevista

“Macau teve o sabor verdadeiro de outro mundo” – entrevista com Paulo José Miranda

Hélder Beja (fotografia de Eduardo Martins)

Paulo José Miranda recorda a Macau de 2001, quando aqui viveu para escrever O Mal, e diz-se feliz por haver finalmente “um verdadeiro diálogo com o livro” que retrata “um tempo muito particular”, logo após a transferência de Administração. A obra será reeditada pela Abismo até ao final deste ano.

O Mal está todo ele impregnado de Camilo Pessanha. Que importância tem para si a poesia deste autor?

Paulo José Miranda (P.J.M.) – Sempre tive uma grande empatia pelo poeta Camilo Pessanha. Tanto pela forma quanto pelo conteúdo. As palavras na sua poesia unem o som ao conteúdo de um modo muito particular e eficiente. Acho que deixo isso bem claro no meu livro.

Quando decidiu aceitar o convite para escrever O Mal, foi uma inevitabilidade acabar a escrever sobre Pessanha ou apenas uma ideia que surgiu posteriormente?

A proposta era desde o início fazer algo à volta de Pessanha. O que aconteceu em Macau foi encontrar algumas vidas que me influenciaram a escrever daquele modo. E escrever sobre Macau, teria de ser algo diferente do que escrevera até então. Pois Macau é realmente um lugar diferente.

O narrador do seu livro traça, com feroz mordacidade, um retrato duro de Macau, do suposto império e da metrópole, e até da vida em geral. É realmente Macau um lugar melhor do que qualquer outro para odiar o mundo, como se escreve em O Mal? Foi a cidade que fez crescer aquela voz narrativa ou foi a voz narrativa já existente que olhou para a cidade daquela forma?

Repare que o narrador do livro não se identifica com o seu autor. Eu não sou aquele que narra os acontecimentos. Há pessoas que influenciaram o narrador, que são bem mais parecidas com ele do que eu, ainda que nenhuma seja o narrador, pois trata-se de uma obra de ficção e não de uma biografia. Quando cheguei a Macau, no início de 2001, Macau atravessava um momento único em quase 500 anos: acabava de ser novamente parte da China; Portugal não tinha mais o poder administrativo da cidade. Mas evidentemente que essa expressão é uma expressão hiperbólica, típica de quem tem uma relação de amor e ódio com um lugar, ou com uma pessoa. Talvez só quem já amou muito um lugar, (ou ainda ama) o possa odiar.

Amor, ódio, mal, mentira, verdade – este roteiro afectivo faz-se pelas mulheres que aparecem no livro, que acabam sempre por ter impacto sobre o modo como o narrador vai olhando o poeta. Que paralelismo é este entre as mulheres e a poesia de Pessanha?

No livro, não há paralelismo entre as mulheres e a poesia. Há, sim, paralelismo entre as mulheres do narrador (em tempos diferentes) e a hermenêutica acerca de Pessanha. No fundo, é sempre assim, nós lemos os livros com aquilo que descobrimos de nós e do outros. Nós lemos os livros com o que sabemos e vivemos no mundo. E, no caso do narrador de O Mal, sendo as mulheres tão importantes para ele, a hermenêutica acerca de Pessanha ia-se alterando com a própria alteração de relacionamento com as mulheres. Pois não eram só as mulheres que mudavam, que eram diferentes, ele mesmo era outro, de mulher para mulher.

Já voltou a Macau depois da sua passagem por lá para preparar este livro, mas gostava que tentasse recordar brevemente o que sentiu e viu nessa primeira visita.

Como disse anteriormente, cheguei a Macau num tempo muito particular. Macau já não era português, muitos dos portugueses estavam a deixar a cidade, por já não terem trabalho. Por outro lado, os comportamentos algo coloniais mantinham-se. Mas repare, como mudar o modo de ser por procuração? Não é possível! De repente você acorda, na sua casa, na sua casa de há mais de 20 anos (para alguns) e é estrangeiro! Este período foi um período mais do que de transição, foi um período de esquizofrenia. Os portugueses eram os mesmos de sempre, sem poderem ser os mesmos. Por outro lado, e no tocante particular – e nesse tempo ainda não havia as colmeias de casinos que há hoje, e não se trata de uma critica, apenas de contextualizar essa minha primeira vez – Macau é uma experiência radical. Os cheiros, o clima, as pessoas, a comida. E repare que eu quando aqui cheguei vivia em Istambul, uma cidade que não é propriamente ocidental. Mas Macau teve o sabor verdadeiro de outro mundo. Era como chegar em outro planeta. Por outro lado, há aqui uma forte relação com o mito. Não só por causa de Camilo Pessanha, mas também por causa de Camões. Não se sabe se ele esteve ou não aqui, mas a verdade é que sempre se contou que ele viveu aqui, na gruta junto à (agora) Fundação Oriente. Instalações onde fiquei, e muito bem instalado e melhor acolhido.

Que significado tem para si, todos estes anos depois, a reedição de O Mal?

Tem uma importância muito grande. Primeiro, quando estive cá no Festival Literário de Macau [2016], pôde assim, e pela primeira vez, estabelecer-se um verdadeiro diálogo com o livro, pois devido ao que se dizia, o diz que se disse, as pessoas acabaram por não ler o livro, acabando por não saber do que realmente tratava. Segundo, mostra que é um livro que tem qualidade, que continua a descobri leitores. O livro não é só um livro sobre Macau e sobre Pessanha, ou sobre Portugal e os portugueses, é também um livro sobre a existência humana e sobre a poesia.

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