Bibliotecas

O Pavilhão do Jardim

Sara Figueiredo Costa, com Elisa Gao (fotografia de Eduardo Martins)

O pequeno edifício octogonal situado no Jardim de S. Francisco é a mais antiga biblioteca pública de Macau e continua a receber dezenas de leitores que procuram as notícias do dia.

Entre a Avenida da Praia Grande e a Rua do Campo, um pavilhão de forma octogonal com telhado verde tipicamente chinês e janelas vermelhas alberga a mais antiga biblioteca pública de Macau. Construído em 1927, com projecto do arquitecto Chan Kun Pui, o edifício foi restaurante e salão de jogos, até ter sido comprado pela Associação Comercial de Macau que o transformou em sala de leitura, reabrindo ao público com essa nova função em 1948. Desde então, o Jardim de S. Francisco conta com uma pequena biblioteca onde predominam as publicações periódicas e onde, de manhã e ao fim da tarde, muitas pessoas se dedicam à leitura dos jornais.

No piso térreo, é essa a actividade predominante. Estantes de madeira escura, com portas de vidro, guardam livros, mas são os jornais e as revistas que dominam o espaço e a procura dos leitores. No andar de cima, ao qual se acede por uma escada estreita com vista para a galeria de fotografias dos benfeitores da Associação Comercial de Macau, o mobiliário dos anos 80 guarda algumas centenas de livros, todos em língua chinesa. É aqui que conversamos com Wong Soi Mui, a bibliotecária responsável, que vai percorrendo as fichas dos associados e os cadernos com as anotações sobre empréstimos devolvidos ou em atraso enquanto nos conta um pouco da história deste espaço: «Depois do regresso à administração chinesa, Macau começou a construir bibliotecas, mas antes disso, esta era a única sala de leitura pública. O responsável pela Associação Comercial fez questão de manter o espaço tal e qual como era, e com o mesmo modo de funcionamento, até hoje.» A decisão nota-se no ambiente da biblioteca, onde não se vêem novidades editoriais, computadores ou a habitual secção de DVD’s. Apenas pessoas sentadas a ler o jornal, quase todas na faixa etária acima dos cinquenta anos. E nem um ecrã de telemóvel brilhando com o acesso à internet, que aqui não existe: «O meu chefe não quer e, para além disso, o Governo também não apoiou a instalação de wi-fi», explica Wong Soi Mui. Ninguém parece dar pela falta dessa ferramenta comum às bibliotecas de hoje e nem sequer os ficheiros dos leitores são consultados no computador, mas sim nas muitas gavetas de um ficheiro de madeira onde se ordenam associados, empréstimos e quotas.

O acesso a esta biblioteca não é exclusivo dos sócios da Associação Comercial de Macau e qualquer pessoa pode frequentar o espaço, assim consiga encontrar um lugar livre para se sentar. «A leitura presencial é gratuita, mas para alguém poder requisitar livros, jornais ou revistas, é preciso ser sócio da Associação Comercial de Macau. A inscrição é muito barata: 15 patacas, se tiver sido recomendado por outro sócio, ou 20, sem recomendação. Depois, há uma quota anual de 10 patacas.» O número de leitores associados tem oscilado ao longo dos últimos anos, nunca baixando dos 250. Em 2012, foram 1400, mas a diferença numérica entre os registos de sócios com as quotas em dia não parece afectar a assiduidade das muitas dezenas de pessoas que diariamente enchem o espaço. «Anualmente, compramos alguns livros, de acordo com as sugestões dos leitores», conta a bibiotecária. Para além dos livros, que são acrescentados de algumas novidades todos os anos, sobretudo nas áreas da ficção e da política, há 51 títulos de jornais e revistas disponíveis para leitura, quase todos em língua chinesa, com excepção dos periódicos em português e inglês que se publicam em Macau.

Wong Soi Mui explica o funcionamento da casa enquanto põe ordem nos papéis, atarefada, porque a hora de encerrar está próxima. A biblioteca abre duas vezes por dia, de manhã e ao fim da tarde, e é preciso assegurar que o espaço fica sempre pronto para o turno seguinte. A rotina não se alterou: «Estou cá desde 1989 e gosto de trabalhar aqui. Gosto muito de ler, por isso gosto de trabalhar aqui», diz a bibliotecária. Acabamos a nossa conversa mesmo em cima da hora de almoço. Os leitores abandonam os seus lugares e as portas do pavilhão octogonal fecham-se para o período de descanso. Ao fim da tarde, quando voltamos a passar pelo Jardim de S. Francisco, as portas vermelhas ainda não reabriram e já se notam as pessoas que esperam pacientemente para poderem entrar. As directrizes da UNESCO para as bibliotecas públicas de todo o mundo apontam para uma necessidade de transformar estes espaços em lugares de conhecimento e acesso à informação, recorrendo para isso a várias ferramentas e modos de utilização e abandonando a ideia de a biblioteca ser apenas o lugar onde se podem ler livros e periódicos. Essa política, abraçada por quase todos os países do mundo, tem dado os seus frutos e não há como questioná-la em tempos de comunicação acelerada e circulação tendencialmente global do conhecimento, mas talvez as bibliotecas possam também responder às vontades e rotinas de quem as procura, por mais simples que pareçam. No caso desta biblioteca, não restam dúvidas de que a disponibilização diária de jornais e revistas em acesso livro é a função que todos os leitores querem ver assegurada. E se quem conhece a função do pequeno edifício do Jardim de S. Francisco costuma referir-se a ele como biblioteca, a verdade é que o nome, em língua chinesa, significa «sala de leitura de jornais e revistas». Era assim em 1948 e continua a ser.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s