Leituras / Livros

Um mal maior

Hélder Beja (fotografia de Eduardo Martins)

Mais de 15 anos depois da sua publicação, e no ano em que se assinala século e meio sobre o nascimento de Camilo Pessanha, é reeditado O Mal, livro de Paulo José Miranda sobre Macau, o poeta de Clepsydra e isto de estar vivo.

Aquilo que, para mim, é particularmente angustiante é não poder saber se me perdi, porque a partir de um determinado momento passei a viver neste mundo distante, ou se me perdi porque não me esforcei o bastante ou somente porque não tenho capacidades suficientes para não ter deixado de me perder. Será que se nunca me tivesse mudado para este Oriente longínquo a minha vida seria mais à imagem do que um dia desejei que fosse?

E a alegria é tão triste quando nos lembramos dela. Releio a frase ao seu autor, o romancista, o poeta, o pensador Paulo José Miranda. Agora, à minha frente neste restaurante de Lisboa, o Paulo é só mais um tipo de meio século a beber vinho branco. O mesmo tipo que em 2001 passou três meses em Macau com uma bolsa de criação literária da Fundação Oriente, a escrever uma novela que aqui se inspirasse. O mesmo tipo que nesses três meses captou a essência de uma cidade (Macau) e de uma comunidade (a portuguesa) para fazer nascer a voz ficcionada do narrador de O Mal, um homem que podia ser todos os homens que nunca aqui começam mas muitas vezes aqui acabam. Um homem obcecado com Pessanha e que perdeu a capacidade de criticar a pátria em Macau, nos países e mulheres limítrofes. Um homem que, como muitos de nós, se vai habituando a já não existir senão neste exílio do Extremo Oriente.

Já fui muito triste em Macau. Precisamente porque a alegria é tão triste quando nos lembramos dela. Como o narrador deste livro – e como o poeta da viola morosa e chinesa – muitos dos que hoje já não cremos e odiamos o mundo de um jeito muito pessoal, praticando ou não o mal, acreditámos um dia nas nossas possibilidades, até no amor, talvez, mas depois aconteceu a vida e Macau a amplificá-la.

O narrador de O Mal quer escrever um ensaio sobre Pessanha e, para isso, deixa Portugal em plena crise de coração – como aliás o poeta, que não vê concretizados os seus afectos pela amiga e escritora Ana de Castro Osório, cuja obra a nossa amnésia e preguiça colectivas têm deixado desaparecer – e ruma a Macau no final dos anos 1980. Neste território, o narrador encontra uma cidade de velhos a despedirem-se do tempo e pressente em si uma desvontade de viver, como em Pessanha. Compreendi que toda a poesia de Pessanha revelava um ódio profundo ao mundo. (…) E em que parte do mundo se poderia odiar mais o mundo do que em Macau?

Não se trata de qualificar Macau como um lugar odioso e deplorável, não. Mas de perceber, através de Macau e dos seus limites e hipérboles, que afinal esse lugar é estar vivo, é o horror do quotidiano, é não pertencer a parte alguma, é estar irremediavelmente só. Porque quando se passa a viver fora do país em que se nasceu aprende-se que não há lugar a que voltar, não há regresso, não há pátria ou terra natal. E não é Macau a causa, apenas o mensageiro, as coisas já eram o que eram antes da cidade, só estavam menos visíveis. O mesmo vale para nós. Aqui aprende-se muito sobre quem se é e sobre o mundo. Por isso, a angústia cresce na medida em que se alarga o horizonte humano. Macau releva, não impõe. A verdade é sempre mais difícil que a mentira.

O Mal fala de um nojo visceral que leva Pessanha pelas ruas de Macau a falar com o seu cão, a chamar macaquinho ao seu filho, a arder no ópio. Ao contrário de Pessanha, que se estava nas tintas para o mundo, odiando-o assim, o narrador do livro odeia o mundo mas quer vingar-se. Logo, munido dos necessários vícios da carne e do pó, decide dedicar-se ao mal, como grande parte dos humanos neste nosso tempo. A principal vítima do mal que pratica é a mulher portuguesa que abomina e com quem decide casar. Devoto no ódio à esposa a quem inflige todo o sofrimento possível, mesmo quando ela o toma por deleite, o narrador já vitorioso afirma: Não há maior prazer para a alma do que assistir a uma vida moribunda pelo mal que lhe infligimos. A partir daqui, este homem vai lendo e interpretando a poesia de Pessanha à luz das mulheres que cruzam o seu caminho e que o conduzem por diferentes caminhos interiores – o amor, o mal, o ódio, a mentira, a verdade.

Já Pessanha, quando parte de Portugal, acima de tudo parte ao encontro dos seus poemas. (…) Pois se a matéria erosiva que todos nós somos não se encontrava ainda na consciência do poeta, encontrava-se já nos seus poemas. Os poemas iam à frente. Chegado a Macau (1894), a noção de limite torna-se muito mais presente, o estar confinado ao buraco que ele há-de referir algumas vezes. Essa claustrofobia experimenta-a também o narrador de O Mal, mais de um século depois: Em Macau não se respira (…) Sente-se de facto a alma a ser desgastada levemente, cozinhada vagarosamente como um peixe. Só que esse desconforto, novamente, tem menos que ver com o lugar do que com a inevitabilidade de existir. Por isso Pessanha nunca sentiu desconforto em ser português, mas apenas em ser. Não que essa condição de ser-se português – e português em Macau – não seja complicada. Dela, o narrador de O Mal ridiculariza o seu inefável e ridículo sentimento de superioridade, os pedidos feitos à mesa de café – one meia de leite; os jornais em língua portuguesa – o cheiro a merda vem do papel. O que o leva a concluir que tudo é pior em Macau, tirando o que é pior em Lisboa.

Eis-nos pois assim – estes que sabemos quem somos, o narrador de O Mal e, pois claro, o nosso Camilo que agora completa 150 anos – eis-nos numa existência em que viver é sem regresso, numa cidade de onde ainda que se volte já não se volta, cientes de que uma pessoa não se impõe tanto quanto um lugar.

Olhando a noite para lá da janela do meu apartamento em Macau, muitas vezes me senti como em um estado suspenso de existência, como se a cidade e todas as suas formas e luzes se tratassem de um jogo, uma realidade virtual e controlada em que eu aceitara entrar e da qual um dia sairia apagando todos os meus erros. Game over. Vivo aqui como com uma vida de empréstimo, que, mais cedo ou mais tarde, vou ter de, ou querer, devolver.

É isto mesmo. Por quanto tempo ficas? Não sei bem, mas não por muito. Estou cansado. Não quero ficar por cá muito mais anos, é só uma temporada. E os anos passam. E a conversa repete-se. Macau.

Andamos pelas ruas da cidade e é como se entre nós e as coisas se interpusesse um finíssimo véu. Deste lugar – aqui também se fode mais que em Lisboa, deve ser do clima – mas deste lugar que resta para um português que parte? Dificuldades em ser português e saudades de não ser chinês. Pois é, o problema é que em Macau, Portugal não é futuro. (…) Regressar não é um prémio, mas um castigo. Mesmo assim, não paramos de pensar nesse dia, o dia do simulado retorno. As vezes que se pensa em entrar num avião e ir vida atrás fora! Não é querer regressar a Lisboa, nem ao passado, é regressar ao nunca vivido lá atrás, ao que se podia ter feito, ao que se podia ter sido.

Quando olhamos pelo retrovisor e pensamos naquilo que perdemos, fixamo-nos normalmente no território dos afectos e dos valores. Dói mais o que já não somos do que o que já não temos e isto a gente não esquece, mesmo quando não se recorda. Vamo-nos sempre lembrando. E lembrar como se nos esquecêssemos é saudade.

A vida, de um modo geral, é uma merda.

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