Entrevista / Tradução

Entrevista Brian Holton: “Um poema sem música é como um ovo sem sal”

Hélder Beja, em Edimburgo

O escocês Brian Holton dedicou quase uma vida inteira ao estudo da língua chinesa e também da sua língua-mãe, o scots. Tradutor de grande parte da obra do poeta contemporâneo Yang Lian, mas também de clássicos como Du Fu, o autor fala desse mergulho num oceano de caracteres desconhecidos e de como o tradutor é também autor do poema que verte para outro idioma. “Estudar chinês foi como abrir a porta para um mundo do qual eu não podia suspeitar, feito de elegância, profundidade, astúcia e beleza.”

Brian Holton entra na Casa de Contadores de Histórias de Edimburgo, atrasado pela locomotiva turística que condicionou a chegada do seu comboio à capital da Escócia e também da literatura e das artes, por estes dias de Agosto em que decorrem um sem fim de festivais em simultâneo. Holton, tradutor literário de chinês com uma longa carreira, poeta ele mesmo, é um cavalheiro, bem falante, pausado, a enrolar tabaco para fumar os cigarros que não dispensa. Trouxe alguns livros para oferecer e mostrar, pequenos tomos de um imenso trabalho que vem desenvolvendo há décadas.

Filho de pai irlandês e mãe escocesa, ambos fluentes em várias línguas, conviveu com diferentes idiomas desde criança, estudou as culturas clássicas, além de música e francês, antes de chegar à língua e cultura chinesa. Só muitos anos depois de aprender à distância os caracteres e os seus diferentes significados, teve a possibilidade de visitar a China Continental e Macau, de viver e ensinar em Hong Kong, e de arrancar com uma carreira de tradutor literário que tem na sua relação com a obra de Yang Lian – poeta nascido na Suíça e criado em Pequim, nome maior do movimento conhecido por Misty Poets – o principal foco de trabalho e atenção.

Brian Holton aceita conceder esta entrevista por email, depois do encontro na Casa de Contadores de Histórias. É do conforto da privacidade, e por escrito, que chegam as respostas e as muitas histórias deste homem para quem a língua chinesa foi o passaporte para um mundo e uma forma de olhar a vida cuja existência desconhecia.

O seu pai era irlandês e falava várias línguas. O seu apetite por aprender idiomas estrangeiros teve essa ressonância de família?

Brian Holton – Sim, é verdade, e também pelo facto de se falarem três línguas na Escócia: o scots [variante linguística germânica], o gaélico [escocês] e o inglês. Um professor de liceu em particular, Donald Mclnnes, foi instrumental ao mostrar-me o valor e a dimensão da língua e literatura em scots. A minha mãe, Isobel Young, e a sua família, todos falantes nativos de scots da zona de [Scottish] Borders, foram também uma grande influência para mim.

Estudou chinês nas universidades de Edimburgo e Durham. Como e porque é que escolheu a língua chinesa?

B.H. – Estudei latim, grego e francês, mas queria algo novo: tinha descoberto as traduções de poesia chinesa de Arthur Waley, depois as traduções de Ezra Pound, e fui transportado para esse universo. Esse foi o ano em que a Universidade de Edimburgo abriu um Departamento de Chinês. Os dois tios da minha mãe, e o pai e o tio do meu pai eram engenheiros na empresa Ben Line e navegaram até ao Extremo Oriente, por isso cresci com mobília e objectos de arte chinesa e japonesa, que foram outra das influências. Estudar chinês foi como abrir a porta para um mundo do qual eu não podia suspeitar, feito de elegância, profundidade, astúcia e beleza.

Depois de vários anos a estudar o idioma sem nunca ter visitado a China, finalmente visitou o país pela primeira vez. Quando foi essa visita e o que é que sentiu?

B.H. – Estive pela primeira vez junto ao Lago Ocidental em Hangzhou numa noite de começo do Outono de 1988, enquanto a luz baixava e, por trás de mim, um grupo de pessoas se divertia e cantava a ópera local: eu lera sobre a beleza do Lago Ocidental durante 15 anos, mas na verdade estar ali foi incrivelmente comovente. Chorei de alegria.

De que modo o estudo e o domínio da língua chinesa mudaram o modo como vê o mundo?

B.H. – A exposição à literatura e ao pensamento chinês não pode deixar de mudar a forma como vemos o mundo. Mergulhei nisso tão profundamente que hoje me identifico como um Neo-Confuciano céptico, com inclinações Budistas e anseios Taoistas. Mudou a forma como escrevo: 八股文Bagu Wen, 起承转合 qi-cheng-zhuan-he, (ou Iniciação-desenvolvimento-modulação-resolução), bem como a ficção das dinastias Ming e Qing afectaram profundamente o modo como estruturo a minha prosa.

O Brian foi o primeiro director do programa de Tradução Chinês-Inglês/Inglês-Chinês da Universidade de Newcastle. Esse foi um desafio interessante?

B.H. – Certamente que foi. Não tínhamos pessoal ou recursos suficientes, e quase não tivemos tempo para planificar um currículo académico. Por vezes foi de levantar os cabelos: lembro-me de um colega entrar no meu escritório e dizer “Não sei o que ensinar daqui por uma hora”, então íamos para a sala dos professores, bebíamos um café e víamos os jornais, e encontrávamos sempre alguma coisa nova que servisse para a aula, como fazíamos quando eu estava nessa mesma posição, o que acontecia regularmente. Sinto-me realmente muito orgulhoso por ter sido responsável por ajudar a começar aquilo que se tornou num curso bastante elogiado e muito popular.

Mais tarde, foi professor em Hong Kong, onde viveu por mais de uma década. Como recorda esses anos?

B.H. – Emocionantes, frustrantes, anos que mudaram a minha vida e que foram incrivelmente divertidos, se bem que na fase final a poluição atmosférica estava a afectar a minha saúde e eu estava a ficar cansado do calor sufocante do verão, por isso precisei de partir. Mas é uma alegria absoluta regressar a uma das mais excitantes cidades do mundo. E nem sequer referi a comida…

Segue de perto a actual situação política em Hong Kong? Que lhe parece?

B.H. – Leio os jornais, mas sempre senti que, apesar do legado histórico do Império Britânico, a política de Hong Kong deve ser para as pessoas de Hong Kong decidirem.

Durante esses anos em Hong Kong, visitou várias vezes Macau. O que é que ficou dessa Macau de outro tempo?

B.H. – Comida, vinho, arquitectura, prazer, sonhar junto à praia… Uma complexidade linguística fascinante, uma cozinha incrivelmente rica e variada e, ao fim e ao cabo, um lugar único e intrigante que acabei por amar de um modo muito especial.

Está naturalmente muito ligado à sua língua-mãe, o scots, sendo provavelmente o mais importante tradutor de literatura chinesa para scots. Qual é a relevância desta tarefa, tanto do ponto de vista pessoal como num sentido mais amplo?

B.H. – Para Kafka, um judeu checo, o alemão foi sempre “a língua de outra pessoa”. Por vezes tenho a mesma sensação com o inglês: o meu diálogo interno é maioritariamente em scots e é por isso que lhe chamo a minha língua-mãe. Comecei e a traduzir para scots quando descobri que o scots pode fazer coisas que o inglês não pode (e vice-versa, claro), e continuei a fazê-lo, primeiro por puro amor, e segundo para dar a minha pequena contribuição para o que será visto pela história como uma época de ouro da literatura escocesa.

Falemos de Yang Lian. Como é que os vossos caminhos se cruzam?

B.H. – Certo dia, em 1992 ou 1993, estava a dar uma aula na Universidade de Durham quando a secretária me interrompeu para dizer que tinha uma chamada urgente. Temi o pior enquanto caminhava para o andar de baixo – será que alguém tinha morrido? Quando peguei no telefone, um homem com uma voz pequinesa cheia apresentou-se como sendo Yang Lian, disse-me que estava a fazer escala em Londres, no caminho entre Berlim e Sidney, e que vira algumas traduções que eu tinha feito para John Cayley uns anos antes. Perguntou-me: “Gostaria de traduzir a minha colecção de poemas curtos?” Bom, o que é que eu podia dizer além de “sim”?

Traduziu uma quantidade importante do trabalho de Yang Lian e acredito que hoje seja muito mais do que um tradutor para ele, tal como ele deve ser para si mais do que um autor. Como é a vossa relação?

B.H. – Publicámos mais de uma dezena de livros e hoje somos velhos amigos. É bastante inusual no nosso ramo ter uma relação tão longa e feliz como esta. Julgo que estamos algures entre um velho casal e um duo de comediantes que trabalham juntos há muito. No entanto, ainda continuamos a encontrar coisas novas acerca do nosso trabalho e de nós próprios.

Qual é a sua obra favorita de Yang Lian?

B.H. – Os trabalhos recentes estão sempre mais vivos na minha mente, então diria que neste momento os trabalhos que prefiro são do Poema Narrativo, o nosso mais recente livro publicado pela Bloodaxe Books, com o título Elegies, Aftrer Li Shangyin (哀歌,和李商隐). É um trabalho musculado, denso e alusivo, como muitas das obras de Yang Lian são, mas há também uma ternura e um lirismo muito comoventes. Além disso, eu adoro a poesia de Li Shangyin, tal como Yang.

No seu ensaio “Translating Yang Lian” escreve que, quando discute as traduções dos poemas com o autor, ambos se referem a eles como ‘os nossos poemas’, não como ‘os teus poemas’ ou ‘os meus poemas’. De certo modo há também uma autoria no acto de traduzir?

B.H. – Parece-me que um poema traduzido tem de funcionar enquanto poema na língua de chegada. Se não funcionar, tem tanto interesse quanto uma piada que não faz ninguém rir. Quando o poema se transporta para outra língua, o poeta perde a sua autoria: é aí que aparece o tradutor e a sua responsabilidade é colocar todos os esforços nesse poema traduzido – lágrimas, suor, trabalho, sangue, até – tal como o autor fez em relação ao poema original. Por isso, sim, o tradutor de poesia não é apenas um secretário ou um estenógrafo, mas antes um criador de trabalho original que existem em paralelo, reflecte e transmite a musicalidade e o sentido do original – e isso é muito mais difícil do que simplesmente escrever um poema, e igualmente criativo.

Também traduziu alguns dos poetas clássicos da China. Que poeta ou que obra elegeria?

B.H. – Tem de ser 杜甫Du Fu, sempre Du Fu, pelas suas piadas tristes perante o desespero, pela sua decência humana fundamental, pelo seu virtuosismo impudente, pela música densa e complexa da sua voz e pela densidade e complexidade do seu pensamento. Como Mozart ou Shakespeare, ele envolve muito num pequeno espaço. Também sou um grande admirador do dramaturgo da dinastia Yuan, 乔吉Qiao Ji, cuja franqueza e humor me deliciam, e cujo virtuosismo é infinitamente surpreendente.

No que toca a autores contemporâneos, traduziu contos, ensaios e outras obras de alguns escritores chineses. Algum autor ou livro que gostasse de destacar?

B.H. – 《剪紙》Papercuts, de梁秉鈞 Leung Ping Kwan. Este foi o primeiro romance que traduzi, e fi-lo em memória desse homem encantador que tive a sorte de ter como amigo. A sua voz apaixonada, mundana, erudita, íntima e muito engraçada mostrou-me imensas coisas e testou as minhas capacidades de tradução ao limite. Havia sempre tanto riso e tanta comida boa na sua companhia, espero que a minha tradução capture pelo menos algo desse prazer que era estar com ele.

Voltando à questão da autoria, o Brian é também poeta. O que é que o leva a escrever poesia?

H.B. – Suponho que诗言志 (shi yan zhi) [o poema]. Os poemas acontecem-me ocasionalmente mas, tal como William Blake, sinto que “os autores estão na eternidade”. O meu irmão gémeo, Harvey, foi um poeta notável em scots e desde que ele morreu senti-me encorajado a escrever mais poesia, e também já ganhei alguns prémios.

Também são conhecidos os seus talentos musicais. Isto está relacionado com o seu trabalho de poeta, um certo sentido de musicalidade?

B.H. – Um poema sem música é como um ovo sem sal. Enquanto tradutor de poesia, a estrutura sonora é a minha principal preocupação depois do sentido. Trabalho muito com a música do poema original na minha cabeça. E sim, enquanto cantor e músico, há sempre uma contaminação entre essas duas partes da minha vida e da minha actividade.

Olhando para a frente, há alguma obra que gostasse muito de traduzir do chinês?

B.H. – Sim, sem dúvida《水浒传》Shuihu Zhuan [“Margem da Água”, romance atribuído a Shi Nai’an]. Há trinta e tal anos traduzi meia dúzia de capítulos para scots. Era jovem e esse foi tanto o meu primeiro trabalho de tradução publicado como a primeira vez que escrevi algo em scots. Desde então que desejo regressar a esse trabalho e terminar a versão de 70 capítulos. É um dos grandes livros do mundo e, infelizmente, ainda não encontrou um tradutor de inglês à altura da tarefa. Os editores escoceses são compreensivelmente reservados no que toca a pegar num livro tão longo e hoje em dia é bastante difícil publicar trabalhos completos de prosa em scots. Talvez um dia…

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