Editorial

Parágrafo #22

 

Sara Figueiredo Costa

Passam setenta anos sobre a publicação de um livro escrito por uma adolescente que haveria de ser lido por muitos milhões de outros adolescentes, mas também por crianças e adultos, sem que a sua autora o pudesse imaginar. O Diário de Anne Frank é leitura obrigatória em muitas escolas e continua a ser um dos livros mais traduzidos do mundo, garantindo que a memória é um bem demasiado precioso para se deixar perder no tempo e que nem sempre a história escrita pelos vencedores é a única que conta. Ari Folman e David Polonsky assinam agora uma versão deste diário em banda desenhada, fugindo de simplificações que vêem nesta linguagem um modo de “facilitar” a leitura de uma narrativa e assinando um trabalho que homenageia a sua autora e todos quantos sofreram e morreram às mãos do regime nazi.

A tradução devia ser considerada uma das Belas Artes. Sem o rigor da transposição entre línguas e as decisões sobre a melhor palavra para descrever uma ideia que muitas vezes não tem equivalente imediato, parte considerável do mundo seria inacessível para todos nós. Em Edimburgo, durante o festival literário que anualmente enche a cidade de autores e leitores, Robert Holton falou ao Parágrafo sobre o seu ofício de traduzir textos, sobretudo poéticos, do chinês para o inglês – mas também para o scots, a sua língua materna. Tradutor habitual do poeta chinês Yang Lian, Holton conhece as dificuldades de dar a ler uma obra noutra língua, dificuldades que não passam pela mera conversão de palavras de um idioma para outro, mas antes pelo encontrar de equivalentes culturais, fonéticos e semânticos que digam do mesmo modo aquilo que nunca será igual: «Parece-me que um poema traduzido tem de funcionar enquanto poema na língua de chegada. Se não funcionar, tem tanto interesse quanto uma piada que não faz ninguém rir.» Quem nunca recorreu aos serviços de aplicações de tradução automática que atire a primeira pedra… por mais que as máquinas processem gramáticas e convertam idiomas, nunca darão conta de uma tarefa tão nobre como explicar-mo-nos uns aos outros e ao mundo através das palavras trocadas entre línguas.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s