Crítica

A angústia do duplo

Viet Thanh Nguyen
O Simpatizante
Elsinore

 

Sara Figueiredo Costa

Em 1975, Saigão aguarda a chegada dos vietcongs. O exército do Vietname do Sul já iniciou a retirada e os últimos militares e respectivas famílias degladiam-se para ver quem consegue escapar nos últimos aviões disponíveis para a fuga. Um general desse exército selecciona os felizardos e, entre eles, não deixa ficar para trás o seu braço direito, um operacional vietnamita que sempre trabalhou ao seu lado e que ganha, nesta última fuga, a hipótese de regressar aos Estados Unidos da América, onde já vivera. Um detalhe: esse operacional do exército do Vietname do Sul, homem de total confiança do general, é na verdade um espião que relata todos os movimentos e infornações relevantes aos vietcongs, tarefa que continuará a assumir quando pisar território norte-americano.

Vencedor do prémio Pulitzer para ficção em 2016, O Simpatizante é o relato desse espião, homem mais atormentado pelos muitos vazios que carrega consigo do que pela duplicidade que lhe garante o ganha-pão: “Sou simplesmente capaz de considerar uma questão de ambos os lados. Lisonjeio-me por vezes dizendo que se trata de um talento e, embora reconhecidamente de uma natureza menor, talvez seja também o único talento que possuo.” O enredo de O Simpatizante é o de um livro de espionagem. Há infiltrados, homicídios por encomenda, mensagens cifradas e muito jogo de cintura de ambas as partes. Para lá dessa primeira linha, onde o mistério se equilibra bem com o desenrolar de uma narrativa onde se reconhecem episódios históricos, Viet Thanh Nguyen abre a narrativa às considerações emocionais do protagonista, usando a sua duplicidade como eco da história recente do Vietname – e estendendo esse eco a realidades partilhadas com outras geografias onde a colonização por parte de países considerados grandes potências esculpiu uma sociedade muito desigual.

A voz confessional deste espião faz de O Simpatizante um grande romance sobre a culpa, as escolhas e o rancor que podem estruturar uma vida, tantas vezes sem que se perceba a fragilidade dessa estrutura. Atormentado pelo vazio deixado pela morte da mãe e a ausência do pai, mas sobretudo pela impossibilidade de acreditar em optimismos num mundo onde os pobres não têm tantas oportunidades para escapar ao seu destino como os discursos sobre o empreendedorismo (ou o self made man, ou o american dream…) querem fazer crer, o espião criado por Viet Thanh Nguyen é um reflexo cheio de arestas das boas intenções de que o inferno parece estar cheio e da comiseração com que tantas vezes olhamos para todas as pessoas que não vivem, pensam e morrem de um modo semelhante ao nosso. No Vietname ou em qualquer outra parte do mundo.

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