Bibliotecas / Reportagem

A última vontade de Sir Robert Ho Tung

Sara Figueiredo Costa, com Elisa Gao (fotografias de Eduardo Martins)

É uma das bibliotecas mais emblemáticas da rede de leitura pública de Macau e é também uma espécie de oásis de serenidade no centro da cidade, tão perto do ruído e dos escapes da Avenida Almeida Ribeiro e do vai-vem constante de gente no Largo do Senado. A casa amarela que alberga a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung partilha o Largo de Santo Agostinho com a igreja do mesmo nome, o Teatro D. Pedro V e o Seminário de S. José, compondo um edificado urbano classificado pela UNESCO. Não se sabe ao certo a data de construção do edifício, mas sabe-se que a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung é anterior a 1894. A sua primeira habitante terá sido Carolina Antónia da Cunha, mas o edifício passou pelas mãos de vários proprietários até 1918, ano em que Robert Ho Tung, homem de negócios de Hong Kong, comprou a mansão, ali se instalando durante a II Guerra Mundial, quando o exército japonês ocupou o território vizinho. Terminada a guerra, Robert Ho Tung utilizava a casa como retiro de férias, sobretudo no Verão.

Em 1955, o proprietário escreveu o seu testamento, deixando o edifício ao Governo de Macau. A condição para que tal acontecesse era simples: o Governo deveria transformar a casa numa biblioteca pública, investindo na aquisição de livros em chinês. “Talvez esta especificidade no que respeita à língua tivesse que ver com o facto de existir a biblioteca do Leal Senado, onde se reuniam livros em português e noutras línguas estrangeiras. Pode ser que tenha sido essa a razão que levou Sir Robert Ho Tung a especificar a questão dos livros serem em chinês”, explica Ophelia Tang Mei Lin, chefe do departamento de gestão de Bibliotecas do Instituto Cultural. No ano seguinte, Robert Ho Tung morre e a família cumpre a sua vontade, entregando a casa ao Governo e acrescentando 25.000 dólares de Hong Kong para que se comprassem os primeiros livros que haveriam de rechear as salas da biblioteca. Em 1958, a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung abre as portas, sendo, na altura, a maior biblioteca pública de Macau e Hong Kong.

O edifício original divide-se em três pisos, onde são notórias as influências da arquitectura chinesa tradicional e ocidental, num cruzamento de gostos e apontamentos decorativos comum em tantas casas de Macau. Cá fora, o jardim estende-se numa vasta área, com árvores e arbustos de diferentes espécies, pequenas alamedas onde se pode passear e muitos recantos onde, no dia em que visitámos a biblioteca, vários leitores aproveitavam a sombra para se protegerem do calor. É no jardim que Ophelia Tang Mei Lin recebe o Parágrafo, iniciando uma visita guiada que nos levará às muitas salas da biblioteca. Para além do edifício original, um novo edifício foi construído recentemente, criando-se uma ligação entre novo e antigo que só é perceptível a partir do jardim. O espaço já era muito pequeno para as funções que desempenhava, por isso foi necessário criar novas áreas: “Em 2002, iniciou-se a construção do novo edifício, ampliando o espaço disponível e inserindo a construção no edifício já existente. Em 2006, as obras estavam concluídas e o novo espaço foi aberto ao público”, conta Ophelia Tang Mei Lin. “No futuro, talvez se instale aqui no jardim um pequeno café com esplanada, que permita aos utentes da biblioteca comerem ou beberem alguma coisa sem terem de sair do edifício.”

Estudar, ler e descansar

A partir do jardim, acede-se ao espaço infantil, imediatamente reconhecível pelas pinturas nas paredes. “Vários autores de banda desenhada foram convidados para ilustrar o ambiente e a escolha recaiu no estilo japonês do mangá, muito popular entre os leitores mais novos.” Nas estantes, alinham-se livros em chinês e inglês, todos a uma altura acessível para as crianças.

No primeiro andar, começam as salas de leitura, repartindo livros, jornais, revistas e registos multimedia por diferentes espaços. “A área de computadores foi reduzida, de modo a ganhar espaço para os livros, porque se percebeu que a maioria dos leitores recorriam ao telemóvel ou a computadores pessoais para pesquisar aquilo de que precisavam. Com o wi-fi, podem fazê-lo e não precisamos de tanto espaço para computadores”, explica a responsável do Instituto Cultural. Numa das salas, os livros são todos em inglês, na outra, em chinês. Quase todos os livros estão disponíveis em acesso directo, podendo ser retirados das estantes e levados para as mesas de trabalho, ou requisitados para empréstimo domiciliário. Ao fundo da sala de leitura, as janelas ocupam toda a parede e oferecem uma bela vista sobre a zona, com sofás adjacentes a convidarem ao descanso. A vista, no entanto, é temporária, porque os estores têm de estar quase sempre corridos, de modo a evitar que a luz do sol danifique os livros. Os sofás, esses, são sempre concorridos, com vista ou sem ela, mesmo que não faltem outros espaços e recantos confortáveis nos vários andares desta biblioteca. Na sala dos periódicos, as mesas estão cheias. Há dezenas de jornais generalistas e especializados, revistas em várias línguas e escaparates organizados por temas. “Temos sempre muita gente nesta sala, porque a leitura de jornais continua a ser um hábito muito presente.” Aqui como em todas as bibliotecas de Macau, esta é a sala mais movimentada, mas no dia em que visitámos a biblioteca todas as outras salas tinham gente, repartindo a sua atenção entre livros e écrãs.

Num dos espaços da biblioteca, um guichet chama a atenção pela azáfama que se observa do lado de dentro. É aqui que se atribuem os ISBN, código numérico internacional que identifica e individualiza cada livro publicado em qualquer parte do mundo, aos livros publicados em Macau. Ophelia Tang Mei Lin recua a 1999 para explicar como Macau começou a atribuir ISBN: “Depois do regresso de Macau à administração chinesa, os responsáveis pela leitura pública do território decidiram pedir à agência internacional de ISBN que Macau passasse a ter um código próprio para os livros aqui publicados. A partir desse ano, a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung passou a ser a sede do ISBN em Macau e é aqui que se atribuem os números que permitem a localização ou identificação de um livro em qualquer parte do mundo.” Anualmente, são atribuídos cerca de 5000 códigos de ISBN, de acordo com Ophelia Tang Mei Lin, número que parece demasiado elevado se tivermos em conta as novidades editoriais com origem em Macau que podemos encontrar nas livrarias locais, independentemente da língua em que os livros se publicam. A responsável do departamento de Gestão de Bibliotecas Públicas do Instituto Cultural explica ao Parágrafo que “esses números são atribuídos a muitos tipos de publicação, e não apenas a livros tal como habitualmente os entendemos. Podemos estar a falar de publicações de pequena tiragem, edições comemorativas, publicações do Governo, pequenos folhetos…”

Um tesouro bibliográfico

A Biblioteca de Sir Robert Ho Tung recebe cerca de duzentos mil visitantes anualmente. Talvez a maior parte desses visitantes, utentes regulares ou esporádicos, não saiba que aqui se encontra uma sala reservada que guarda uma colecção de cerca de vinte mil livros antigos, todos escritos em língua chinesa. “Não se conhecem todos os detalhes sobre o início desta colecção, mas sabe-se que entre as décadas de 50 e 60 do século passado, o Governo de Macau comprou uma série de livros antigos. Depois, a coleção foi crescendo, até hoje”, explica a nossa anfitriã.

Entrando na área reservada, o ambiente controlado é imediatamente perceptível. “Aqui não pode haver humidade e a temperatura tem de ser constante, ou as obras ficariam danificadas”, como explica a responsável pela conservação desta parte da biblioteca. Os mais antigos livros da sala remontam à dinastia Ming e compõem uma colecção intitulada Yong Da Ji, com trinta e seis volumes, mas quase todas as obras aqui guardadas são muito raras, umas vezes pela sua antiguidade, outras pelo facto de serem exemplares únicos. Apesar de reservada, a sala pode ser visitada, mediante um pedido prévio à biblioteca, e os livros estão à disposição dos investigadores que queiram consultá-los. Mas, como explica Ophelia Tang Mei Lin, “não há muita gente interessada em estudar estes livros”. Talvez por isso seja tão relevante o trabalho de digitalização de cada um dos exemplares aqui guardados, uma tarefa que a biblioteca e o Instituto Cultural assumiram e à qual já deram início. “O processo é muito demorado, porque alguns livros são frágeis e a digitalização tem de ser feita com todos os cuidados”. E há muitos livros que vão precisando de restauro, um processo que também é lento e tem de ser meticuloso, até porque as oficinas de restauro se localizam na Biblioteca Central, no Tap Seac, o que implica transportar os livros e expô-los ao ambiente da rua, ainda que durante pouco tempo. “Neste momento, já estão digitalizados mais de seiscentos livros e vamos continuar a fazer esse trabalho”, diz Ophelia Tang Mei Lin.

Na sala, as lombadas alinham-se em estantes com porta de vidro. No centro, uma mesa, onde alguns manuscritos foram abertos para que lhes pudéssemos apreciar a caligrafia, sempre com o retrato de Sir Robert Ho Tung a zelar pela integridade dos livros. O silêncio e uma certa solenidade criada pelas encadernações antigas, ou talvez pelos caracteres bem desenhados a pincel e tinta, isolam o espaço do bulício exterior. Quando nos aproximamos do corredor instalado na varanda fechada, onde se situam as mesas de trabalho destinadas aos investigadores, percebemos que lá fora a cidade já pulsa com a agitação do fim do dia, gente que sai do trabalho, gente que volta para casa, carros, buzinas e travagens sonoras a ecoarem a partir da San Malo. Cá dentro, silêncio e livros à espera de serem descobertos.

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