Crónica

Escrita na Brisa (Yao Feng)

A universalidade, a identidade e a poesia

A universalidade é aquilo que a poesia aspira atingir, tal como outras modalidades literárias e artísticas ambicionam, uma vez que a expressão literária ou artística constitui uma necessidade de evidenciar as coisas da alma e do corpo junto ao universo. Nenhum poeta escreve só para si próprio. Todos os poetas querem dizer e ser escutados universalmente.

Como sujeito ou alma dos seus momentos vividos, cada poeta constrói a sua identidade no seu espaço e no seu tempo, mas nenhum deles escapa aos temas comuns que marcam a poesia desde o princípio dos tempos: o amor, a morte, a guerra, o medo, a dor, a ilusão, o sonho, a loucura, entre outros, componentes que nunca pouparam e não devem poupar a voz dos poetas. Neste sentido, pode dizer-se que a escrita de qualquer poeta representa um fragmento da humanidade, sendo inserida na universalidade. Ou seja, todos os poemas são um poema. Todos os poetas, seja chinês, seja português, seja angolano, são da mesma tribo, tendo os mesmos temas como fonte da inspiração.

No entanto, se olharmos para a questão da universalidade a partir da arte poética, temos consciência de que a universalidade representa uma meta muito elevada, um destino pouco atingível. Na realidade, de entre milhares e milhares de poetas, só poucos conseguem inscrever-se na universalidade através da sublimação da arte poética.

Assim sendo, a universalidade significa que um poeta tem de enfraquecer, transcender, questionar fronteiras e limites, objectivos e de si próprio, com vista a uma partida rumo para além do seu lugar habitável. Para tal, o poeta deve viver intensamente os momentos como homem e depois revivê-los como poeta, a fim de extrair dos lugares comuns alguma coisa sua própria que, não obstante, tem capacidade de estabelecer a cumplicidade com outro. Que a sua dor ou alegria seja também sentida e compartilhada por outro. O poeta, sempre partindo do seu particular, faz da poesia um acto transcendente que alcance a universalidade. Ou quer dizer que o poeta tem que edificar e desenvolver a sua identidade. A universalidade e a identidade são os dois lados de uma moeda. São complementares e não podem ser separados um do outro. Só a poesia que espelha a identidade do poeta como sujeito da sua vida e da sua poética poderá tornar o universal mais alargado.

Hoje em dia, diante da globalização, a universalidade da nossa vida quotidiana torna-se cada vez mais fácil de ser configurada. O mundo tende a tornar-se cada vez mais semelhante a um modelo, causando homogeneização cultural entre todos os países. É um tipo de universalidade que intenta eliminar as diferenças que nos caracterizam a vida e que nos faz perder a identidade. É uma universalidade a que devemos renunciar.

Apesar de a poesia estar a ser condenada a um mundo cada vez mais isolado, a poesia não se vai sumir como as estrelas não podem sumir-se. Em termos práticos, as estrelas não servem para nada. Se todas as estrelas forem apagadas do céu, o mundo humano será horrível. Então, a poesia é tal como as estrelas, embora não tenha utilidade realista, não pode faltar à vida humana.

 

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