Entrevista

Julian Fuks: “A literatura ganha quando surge a partir de uma necessidade própria”

Hélder Beja (fotografias de Fernanda Sucupira)

Julián Fuks, mais recente vencedor do Prémio José Saramago com A Resistência, sentiu que precisava de escrever um romance sobre o seu irmão adoptivo e acabou a escrever sobre a sua família, sobre si mesmo e sobre aquilo a que chama pós-memória: a História e as histórias que não sendo suas também são, por serem dos lugares de onde veio e das pessoas que o precederam. Em entrevista, o autor brasileiro fala de um livro em que realidade e ficção caminham mesmo lado lado.

Hélder Beja

É quase inevitável começar por esta pergunta: o que há ou quanto há de autobiográfico neste livro?

Julián Fuks – Essa é a pergunta envergonhada que as pessoas tendem a fazer sobre o livro, porque há já algum tempo se estabeleceu na literatura que não interessaria o que é externo ao livro – isso tudo seria de interesse menor, já que a literatura deveria preservar sua autonomia – e recentemente eu vejo cada vez mais os leitores, críticos, etc., interessados em ouvir algo que está externo ao livro, algo que precede o livro ou subjaz a ele no âmbito daquilo que a gente chama de real. No caso d’A Resistência, todo este preâmbulo serve para dizer que sim, que há muito de real ali. Praticamente toda a história familiar, tudo o que se elabora sobre o passado, sobre a relação com o irmão, todas essas questões são estritamente autobiográficas, ou biográficas, em relação aos meus pais. O que tem de ficção é algo menor mas fundamental, que é uma espécie de mise-en-scène: enquanto escrevia o livro e essa voz do narrador, eu não estava em Buenos Aires, mas o meu narrador precisou estar em Buenos Aires para que aquilo fizesse sentido. Todas as buscas, essa relação com a cidade, ela é de outras situações, de outros momentos, mas me parecia importante concentrá-la ali, para que houvesse alguma tensão narrativa. Então, a ficção existe ali como mero deslocamento, como transformação da experiência para que ela ganhe mais contundência, mais precisão.

Ainda continuando fora do livro, foi essa carga autobiográfica que o fez escolher a adopção como tema? É uma escolha curiosa. Julgo nunca ter lido uma obra de ficção cujo tema central fosse a adopção.

Esse foi sem dúvida o ponto de partida. Eu sentia em alguma medida um dever de escrever sobre isso, já vinha adiando esse suposto dever há bastante tempo. Talvez pelo que está narrado ali: o próprio pedido do irmão para que se escreva esse livro, e esse pedido foi tal e qual na vida real, num momento de bastante intensidade das relações familiares, de reconhecimento dele próprio, da questão da adopção, ele me pediu que um dia escrevesse sobre isso. Não especificamente sobre ele, mas sobre a adopção, de alguma maneira. Aquilo me ficou como um pedido longínquo, como algo que eu não necessariamente deveria atender, mas aos poucos foi-se processando dentro de mim como uma necessidade, e parece que a literatura ganha quando surge a partir de uma necessidade própria. Não que essa necessidade seja biográfica ou a pedido de alguém, mas que seja de facto necessário o acto da escrita, tantas vezes marcado por uma certa arbitrariedade. Então me pus a escrever esse livro sobre meu irmão, para tratar da questão da adopção directamente, e aos poucos fui percebendo que para tratar dessa questão e para abordar meu irmão, eu não poderia deixar de abordar meus pais e as circunstâncias de meus pais, e explorar todo um passado que me pertencia e não me pertencia ao mesmo tempo, e assim de alguma maneira aquilo que comecei a escrever como um conto foi-se transformando nesse romance.

Numa sessão em que participou no Brasil, falou da crise da imaginação e daquilo a que chama de pós-ficção, termo que prefere à auto-ficção. Vê-se a trabalhar nesse território com este romance? É isso que lhe interessa neste momento?

Sim, sinto que pertenço a esse tipo de linhagem de autor contemporâneo. Não necessariamente centrado na auto-ficção, porque essa é só uma parte de um processo que me parece maior. A auto-ficção pode ter por vezes um carácter narcisista com o qual eu não espero me reconhecer. Acho que há um fenómeno muito maior, que é o dos hibridismos, da literatura ficcional que vai-se mesclando, nesse caso com a autobiografia, mas também com a historiografia, com o ensaio, com a crítica. Há muitas maneiras em que a literatura e o romance como género têm-se aproximado de outros discursos, têm-se deixado contaminar proveitosamente por esses outros discursos. Óbvio que pós-ficção é um termo provocativo, porque a ficção não é abandonada nunca e porque essas são ainda narrativas ficcionais. Quando o romance se aproxima desses outros discursos não ficcionais, ele não deixa de ser ficcional por si mesmo. Essa ideia me interessa bastante, parece que é um dos pontos em que a narrativa está conseguindo inovar, tomar novos rumos, encontrar novas questões – algo que, por um instante, parecia impossível, porque o século XX já tinha supostamente destruído tudo o que era possível destruir no âmbito do romance e transformado tudo o que era possível transformar.

Entrando no livro, e começando pelo título, A Resistência aqui tem diferentes significados. Por um lado, como disse noutra entrevista, é aquilo que nos faz avançar, resistir a uma adversidade – neste caso também com a história da Argentina e da sua família em pano de fundo – e por outro lado aquilo que também nos pode isolar, o acto de resistir a fazer parte de alguma coisa, como no livro a história do filho que acaba por sentir-se um estranho na casa de família. Como foi trabalhar este conceito de resistência e a sua ambivalência?

Justamente, isso me interessou desde o início. Quando me deparei com esse título – porque na prática o título não fui eu que escolhi, foi uma sugestão do editor, o título original era O Irmão Possível – mas quando o editor me sugeriu A Resistência isso tinha muito a ver com vários dos movimentos do próprio livro. A palavra ‘resistência’ aparece em diversos momentos e em contextos distintos, representado essas duas coisas quase opostas: resistir no sentido negativo, de não querer se envolver, não querer se entregar a uma convivência familiar, da parte do irmão; ou resistir como acto político, como tomada de posição, como acção positiva. Isso me fez pensar se a literatura não seria isso, se não seria essa tentativa de converter a resistência negativa, aquilo que nos impede de enxergar e de falar sobre um assunto, numa resistência positiva, numa tomada da palavra para que ela represente algo de mais contundente. Me parece que como se tratava de abordar algo que se tinha convertido na família numa espécie de tabu, e algo sobre o qual a gente não devia conversar, o resistir ao tabu foi a maneira que eu pude utilizar para que a própria literatura se tornasse em alguma medida resistente.

Já começamos aqui a tocar a histórias que atravessam o livro, que tem também a História da Argentina por detrás. Enquanto autor, o que é que lhe interessa mais: as histórias ou a História?

Me parece que as coisas estão associadas. Enquanto escritor, fui percebendo ao longo do tempo que não era possível contar uma história que ficasse completamente dissociada da História com H maiúsculo. O que a gente vê, pelo contrário, é que cada pequena história é uma reverberação possível dessa outra grande História. Sinto que com isso me aproximo daquela ideia que para mim é fundamental: de que o pessoal é político. Recentemente, no Brasil, a gente pode reformular essa noção que vem do feminismo, de que o pessoal é político, e perceber que o político também é pessoal, também marca muito as nossas vidas. Então essas coisas estão completamente imbricadas e relacionadas. Na prática não se diferenciam as histórias e a História.

O Julián é filho de pais argentinos. Que relação tem com essa História da ditadura militar, com a Argentina e com o facto de ter nascido no Brasil? No livro aborda o facto de se tratarem de povos com diferentes características.

Em grande medida o livro é mais uma elaboração dessa relação, porque o meu romance anterior, Procura do Romance, já era uma forma de tentar lidar com esse passado que é a um só tempo meu e não é meu. É aquela pergunta que permanece em aberto no próprio livro: se um exílio é herdado, se nascendo durante o exílio dos meus pais, isso faz de mim em alguma medida um exilado. Uma pergunta talvez banal mas que não resulta em nenhuma resposta fácil. Para mim essas questões identitárias, talvez por essas circunstâncias, nunca tiveram respostas precisas. Nunca tive elementos concretos para afirmar com toda a determinação ‘sou brasileiro’ ou ‘sou argentino’. Quando se tem essa origem incerta as identidades se tornam mais fluidas e questionáveis, e revelam algum da condição de todos e qualquer um de nós. Esses elementos de identidade são quase elementos ficcionais que a gente postula para nós mesmos e tende a se enxergar de tal maneira e a se relacionar a tal país de uma forma que é meramente uma construção. Pessoalmente, acho que boa parte do tempo me sentia no Brasil um pouco distante dos meus conterrâneos, me sentia em alguma medida diferente, talvez por essa diferença de comportamento. O brasileiro é mais aberto, mais afectuoso, mais expansivo; talvez o argentino mais circunspecto, mais sério, mais conflictivo em vários aspectos. Sinto que em alguma medida me reconhecia nos argentinos em oposição aos brasileiros, mas ao tentar bastante me aproximar da Argentina fui percebendo que há em mim muitos daqueles traços que a gente reconheceria no brasileiro, que essa figura afectuosa e aberta não desaparece em mim, ela está aqui presente e me marcou fortemente na vida. Então sinto que a um só tempo posso me aproximar dessas duas identidades distintas. Como escritor também tenho vontade de uma vinculação dupla, porque me parece que vocação da literatura brasileira tem sido desde sempre uma tentativa de compreensão da identidade nacional e da história nacional – Machado de Assis, Graciliano Ramos, Drummond, todos eles pensavam o seu próprio povo e acho que isso é algo bonito. E me interessa na literatura argentina a auto-reflexividade, a capacidade metalinguística, ensaística, sobre o próprio afazer literário. Me dá vontade de tentar conciliar essas coisas: de tentar encontrar a pertinência temática da literatura brasileira e o rigor estético da literatura argentina.

No livro nota-se de facto essa busca que o narrador faz da sua própria identidade. Ele é muito importante neste romance, para já porque nos fala na primeira pessoa, mas também porque a dada altura a sua própria história define-se como a mais importante do livro para se perceber a história do irmão e da família. Este também foi um processo que foi acontecendo?

Também foi. Talvez a percepção gradual de que não seria possível de facto penetrar na história do irmão, de que aquilo seria sempre uma especulação sobre esse irmão, a percepção de que talvez eu não devesse explorar a fundo e fazer desse um livro de busca como outros livros semelhantes a esses, uma tentativa de cavar no passado, de encontrar dados sobre essa identidade perdidos em algum lugar. Me pareceu que estava construindo a história de um outro, do meu irmão que só pode decidir sozinho se vai ou não explorar a sua própria origem, explorar aquilo que antecede a entrada dele na família. Na prática era uma busca infundada da minha parte, uma busca que eu não deveria fazer. Então o livro não faz esse gesto de ir atrás das informações do passado e só se permite transitar entre especulações. Assim, a busca se torna muito mais pessoal e muito mais ligada a esse narrador, mais ligada ao Sebástian do que ao irmão e àquilo que era o objecto inicial.

Nessa busca, o Julián utiliza vários recursos, uma espécie de jogo literário em que o narrador fala do próprio livro que está a escrever, livro que a dada altura acabará por mostrar à família. Porque é que decidiu utilizar este jogo literário?

Porque, por ter esse carácter biográfico, pareceria que a gente tem um referente concreto alcançável, e a experiência de escrita me mostrava exactamente o contrário: aquele referente era inalcançável, falar do meu irmão só excluía o meu irmão da narrativa, ou incluía e excluía ao mesmo tempo. Falar dos meus pais também tinha esse efeito, tinha todo aquele paradoxo da representação: ao dar um nome à coisa, você refere a coisa, mas ao mesmo tempo exclui a coisa em si. Meu irmão desaparecia do livro e meus pais desapareciam do livro à medida que eu ia construindo personagens que eram descritos dessa maneira. Sinto que, para dar conta dessa questão, a forma mais imediata e sincera era falar desses problemas da representação, dos problemas narrativos, era eu mesmo como escritor colocar meu narrador para duvidar de si, para sempre desconfiar da sua própria narrativa. Me parece que esse é um gesto importante do próprio livro, é característico dele. Não seria possível a existência desse livro sem esse elemento auto-reflexivo.

Ainda no que toca ao trabalho de escrita e à estrutura, os capítulos são bastante curtos, dão quase uma sensação diarística em que o leitor vai acompanhando os registos daquele homem quem anda à procura do seu passado e de explicar a relação que tem com a sua família. Este registo mais curto aparece para dar mais força à narrativa?

É interessante essa aproximação com o diário, nunca tinha me ocorrido e acho que ninguém ainda tinha visto isso no livro – e me parece preciso, tem algo de diário de escrita e diário de pensamento. Os capítulos curtos em si tinham talvez a ver com uma necessidade de nesse livro ir muito directo ao ponto, o ponto de partida dele é o mais imediato possível. O gesto inicial de cada capítulo é sempre ‘tem algo que eu preciso dizer e que eu vou dizer directamente’. Depois vou nuançar, elaborar, ver a complexidade que cada coisa tem e a subtileza que cada um dos momentos exige, mas na prática era uma vontade de falar directamente das coisas. Então acabei prescindindo de algo que era forte na minha literatura antes desse livro, que era o carácter mais descritivo, uma aproximação lenta ao tema e ao que se quer narrar.

Saindo novamente do livro, já tinha recebido o Prémio Jabuti por A Resistência, recebeu agora o Prémio Saramago. Que importância têm para si os prémios?

Para mim são a um só tempo um elogio importante, que me honra, e um voto de confiança, particularmente o Prémio Saramago, que é um prémio para jovens, uma aposta no futuro, uma declaração como ‘se espera bastante desse autor, vamos ver o que ele tem a produzir’. É uma espécie de contrato que você faz com um universo de escritores, de continuar escrevendo e tentar fazer o trabalho mais consistente possível. Nesse sentido, os prémios passam de ser uma honra para ser também uma responsabilidade. Ao mesmo tempo, o que mais me agradou é que os prémios abrem relações com uma infinidade de novos leitores. Nota-se um interesse crescente pelo livro e isso cria uma série de diálogos como esse que a gente está travando agora, e que podem ser muito estimulantes para a continuidade de uma produção, para o pensamento sobre literatura, para conseguir sempre dimensionar os efeitos daquilo que a gente construiu e pensar novos efeitos, novos recursos. Você mencionou nessa conversa a questão do livro enquanto diário, algo que nunca tinha sido dito sobre o livro, ou seja, isso aprofunda minha própria visão sobre o livro.

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