Crítica

O corpo certo

Sara Figueiredo Costa

Quando nasceu, em 1926, chamaram-no James Morris. Estudou em Oxford, foi oficial do Exército Britânico, jornalista, escritor e um viajante dedicado. Casou com Elizabeth Tuckiness, sua companheira de sempre, com quem teve cinco filhos. Deviam tê-lo chamado Jan Morris, nome mais apropriado para alguém que sempre soube ser uma mulher, mesmo que as imposições da anatomia fizessem parecer o contrário. «Tinha três anos, talvez quatro, quando me dei conta de que nascera no corpo errado, de que deveria ter nascido rapariga. Lembro-me bem desse momento, pois trata-se da memória mais precoce da minha vida.» Assim começa Enigma, publicado pela primeira vez em 1974, o livro onde Jan Morris narra a sua viagem mais intensa, aquela que teve como ponto de partida esse momento guardado na memória mais remota e que prosseguiu durante décadas, numa demanda constante pela identidade e a sua expressão, até ao momento, em Casablanca, em que uma cirurgia concluiu finalmente o processo de mudança física de sexo, colocando o corpo da autora em sintonia com o seu ser.

Jan Morris descreve este longo caminho com detalhe e naturalidade, da assunção inicial, ainda na infância, até à decisão, um pouco mais tardia, de iniciar s procedimentos que lhe permitiram corrigir fisicamente aquilo que sempre foi claro do ponto de vista da identidade. À descrição, a autora acrescenta várias reflexões, nomeadamente sobre as diferentes percepções do mundo perante a mesma pessoa conforme a assumem como um homem ou como uma mulher, e aqui está alguma da mais relevante matéria deste livro. Pouco antes da operação em Casablanca, escreve Morris: «Aprestava-me para adaptar o meu corpo, passando de uma conformação masculina para outra feminina, e iria mudar radicalmente o meu papel na sociedade (…)» (pg.142). E mais adiante, já depois da cirurgia: «Dizem-nos que o hiato social entre os sexos está a diminuir, mas pela minha parte posso apenas afirmar que, tendo experimentado, na segunda metade do século XX, a vida em ambos os papéis, me parece não haver um só aspecto da existência, um só momento do dia, um só contacto, um só conjunto de normas, uma só reacção que não seja diferente para os homens e para as mulheres.» (pg.195) É aqui que o testemunho de Jan Morris, já de si precioso por compor uma narrativa íntima, honesta e clara sobre um tema nem sempre tratado desse modo, se vê acrescentado de uma reflexão essencial sobre o que é isso de sermos homens ou mulheres e sobre o quanto pesa, nessa definição, o gesto, a aparência e a sociedade, muito mais do que a biologia.

Uma nota final para a belíssima tradução de Paulo Faria, obrigada a enfrentar a marcação gramatical de género em português, muito mais notória e impossível de evitar do que em inglês, e conseguindo fazê-lo de um modo gradual e elegante que acompanha o processo de mudança descrito pela autora.

 

Jan Morris
Enigma – História de uma mudança de sexo
Tinta da China

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s