Editorial

Parágrafo #24

Sara Figueiredo Costa

A literatura tem essa capacidade infinita de voltar o olhar para todos os temas possíveis, por vezes criando mesmo temas que aparentemente nunca se terão visto em letra de forma, outras regressando uma e outra vez àquilo que já conhecemos, mas de um outro modo. Os cautelosos, no entanto, gostam de afirmar que não há assim tantos assuntos quando o gesto é o da escrita: andamos todos a tropeçar nas mesmas pedras desde que nos conseguimos pôr de pé, sair da caverna, caminhar por aí e fixar morada onde nos parecesse melhor. Amor, paixão e desejo, ganância, poder e vontade, viagem, ilusão e queda. Ou, talvez resumindo todos os temas num só, identidade, porque isso é aquilo que somos e já sabemos há muito – também porque os livros no-lo confirmaram, página atrás de página – que somos muitas coisas, em diferentes momentos, e às coisas que somos há que juntar as que queríamos ser, as que tememos ser, as que os outros querem que sejamos. Vem tudo nos livros, sim, mas não há dois iguais (livros ou seres humanos). Uma passagem de Doutor Pasavento, o livro de Enrique Vila-Matas que dialoga com Robert Walser enquanto nos vai armadilhando as certezas de leitores desprevenidos sobre a nossa suposta estabilidade mental, podia bem servir de epígrafe a esta edição do Parágrafo que, sem que disso nos fôssemos apercebendo, acabou por ter a identidade como tema central: «E eu sou parecido com quem? Seguramente que tenho algo de equilibrista que, numa alameda do fim do mundo, se passeia pela linha do horizonte. E creio que me movo como um explorador que avança no vazio.» Mais adiante, o narrador coloca a reflexão sobre a identidade no centro do processo de escrita, dizendo adorar «essa linha de sombra que, ao cruzá-la, vai parar ao território do desconhecido, um espaço onde de repente tudo nos é muito estranho, sobretudo quando vemos, como se estivéssemos no estado infantil da linguagem, que nos toca voltar a aprender tudo, embora com a diferença de que, em criança, nos parecia que podíamos estudar e entender tudo, enquanto que na idade da linha de sombra vemos que o bosque das nossas dúvidas nunca se tornará nítido e que, além disso, o que a partir de então iremos encontrar serão apenas sombras e treva e muitas perguntas.» É precisamente o que encontramos em A Resistência, de Julian Fuks, e nas suas deambulações pelo passado, mas também na reflexão de Yao Feng sobre a arte poética e na descrição que Jan Morris faz da sua mudança física de sexo, caminho natural para que o seu corpo correspondesse, enfim, aquilo que a autora realmente é. Exploradores que avançam no vazio, cada um à sua maneira, dando-nos a nós, leitores, as mesmas coordenadas frágeis e os mapas possíveis para nos irmos perdendo e encontrando também.

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