Reportagem

A nova vida da Pinto’s

Sara Figueiredo Costa (fotografias de Eduardo Martins)

Quando a livraria Pinto’s anunciou o seu encerramento, em 2016, temeu-se que já não voltasse a abrir as portas, mas a persistência do livreiro Anson Ng trocou as voltas àquele que é, demasiadas vezes, o destino das pequenas livrarias independentes em todo o mundo

Durante muitos anos, a livraria Pinto’s foi um segredo guardado à vista em pleno Largo do Senado. Quem atravessasse desatento a calçada portuguesa, mais focado no chão do que nos edifícios, não daria por ela, mas uma janela de primeiro andar aberta para a praça dava a ver um recanto acolhedor onde as estantes cheias de livros marcavam presença. A porta aberta, no rés-do-chão, servia todo o edifício e as escadas com publicidade a uma marca de electrodomésticos não ofereciam a certeza imediata de se estar a entrar na porta certa, mas chegando ao átrio do primeiro andar, as dúvidas dissipavam-se. Aberta a porta de vidro, com direito a sininho como nos filmes, chegava-se a uma das salas mais acolhedoras de Macau para quem tenha nos livros e na sua respiração uma certa ideia de paraíso. O sofá junto à janela acolhia os leitores que quisessem deixar-se ficar por mais tempo – desde que não expulsassem o gato da sua almofada cativa – e o chão de madeira criava a ilusão de estarmos na casa de alguém com uma biblioteca suficientemente diversificada para receber leitores muito diferentes. Noutra sala, os discos marcavam presença, com uma oferta difícil de encontrar em qualquer outra parte de Macau e onde CD’s e vinis conviviam sem conflito, entre o jazz, a música clássica e as muitas nova tendências do rock dito independente.
Em 2016, as janelas da Pinto’s fecharam-se no Largo do Senado e durante muitos meses os leitores que a frequentavam temeram que não houvesse regresso. O mercado do arrendamento está difícil para qualquer negócio e ainda mais para uma pequena livraria, mas a Pinto’s voltou a existir noutra morada. No Verão deste ano, Anson Ng voltou a abrir as portas da sua livraria, agora no número 47 da Rua Coelho do Amaral, onde falou com o Parágrafo sobre esta mudança e os planos para o futuro. «O dono do edifício onde estávamos, no Largo do Senado, disse-me que tinha de sair, sem grande margem de aviso. Nem sequer me disse que queria aumentar a renda, ou algo parecido, simplesmente disse-me que tinha de sair porque tinha outros planos para aquele espaço. Na verdade, agora está vazio. Toda aquela área da cidade mudou muito nos últimos anos e já estávamos, de certo modo, à espera que isso pudesse acontecer.»
O novo espaço é muito diferente do antigo, começando pela porta de vidro a dar directamente para a rua. «Estou muito satisfeito com este lugar», diz Anson Ng, «desde 2003 que estávamos no mesmo sítio, no Largo do Senado, e agora isto faz-nos aprender mais sobre o negócio do livro e sobre a própria cidade. Este lugar já foi uma livraria de livros usados e o edifício, de três andares, está alugado a uma companhia de teatro e eram eles que tinham essa livraria a funcionar. Em 2016, a livraria de livros usados já estava fechada e acabou por ser uma boa oportunidade para a Pinto’s. Na verdade, esta foi a minha primeira escolha, ainda que tenha visto outros espaços.» Com menos área disponível, as estantes reduziram-se e apresentam agora uma selecção mais breve. Ainda assim, percebe-se o cuidado na escolha e a vontade de ter bem representadas as áreas da literatura, com destaque para a poesia, da arte, da fotografia, das viagens.

O mercado livreiro mudou muito nos últimos anos, com as compras on-line a resolverem o problema da falta de livrarias ou da dificuldade de encontrar certos livros. Apesar disso, ir à livraria e comprar livros não são a mesma coisa. Na Pinto’s, onde a maioria dos livros são em língua chinesa, com algumas presenças do inglês, pode-se conversar com o livreiro, espreitar as novidades editoriais, pedir aconselhamento. «Há dez ou vinte anos, quem abria uma livraria em Macau via o trabalho como um negócio, mas hoje está muito claro que não é bem assim. Quem abre uma livraria, fá-lo por gosto, por dedicação, mas claro que tem de descobrir como sobreviver. A minha ideia de uma livraria ideal é esta, com livros sobre diferentes temas, sobre arte, fotografia, literatura, mas livros de qualidade, e com atendimento personalizado, de quem conhece os livros. Agora, por exemplo, estamos a apostar muito na banda desenhada e nos livros ilustrados, e não apenas para crianças, e é preciso perceber como vão ser recebidos. Muita gente pensa que os livros com imagens são para crianças e isso não é verdade. E também estamos a apostar na poesia, porque começam a aparecer vários novos poetas em Macau. A ideia é perceber as diferentes comunidades e interesses que os leitores que nos procuram têm.» O movimento da Rua Coelho do Amaral é muito diferente do que se verifica no Largo do Senado. Aqui estamos numa zona residencial, não turística, e as pessoas têm outras rotinas, que Anson Ng espera que passem pela entrada na sua livraria: «Os clientes aqui são diferentes. Alguns antigos clientes continuam a acompanhar-nos, claro, mas agora há outros clientes, aqui do bairro, e estou a tentar perceber que livros querem ler. É preciso encontrar este equilíbrio e acho que estamos a conseguir fazê-lo, aos poucos. Além disso, aqui temos menos espaço, por isso é preciso escolher com cuidado. De qualquer modo, o que me interessa realmente é ter bons livros e poder responder aos interesses diversos das pessoas, perceber que grupos, que comunidades existem em Macau e encontrar modos de cooperar com elas, seja o grupo que se interessa por poesia ou o que trabalha com design gráfico. Agora não temos espaço para os discos estarem noutra sala, como acontecia na antiga livraria, por isso temos poucos discos. Ainda teremos de perceber se devemos ter mais ou não, mas é uma coisa que vamos estudar.»
A Pinto’s nasce desta vontade de vender livros aos leitores que os procuram e de estabelecer contacto com eles, criando laços. O nome, que cria alguma estranheza nos portugueses, podendo levar a crer que o dono da livraria tem apelido homónimo, é um trocadilho com a expressão cantonesa que significa qualquer coisa como “onde?”, uma mistura de incredulidade perante a hipótese de uma livraria sobreviver como negócio e vontade de lhe descobrir a localização. Foi com esse espírito aventureiro que Anson Ng abriu a primeira Pinto’s, há catorze anos: «Quando abri a Pinto’s, em 2003, tinha três sócios. Nessa altura, passava a maior parte do tempo em Taipé, um lugar onde as livrarias abundavam e onde o acesso aos livros era comum. A mim e aos meus sócios parecia-nos que a oferta livreira em Macau era insatisfatória, por isso tentámos criar uma pequena livraria, para termos acesso aos livros que queríamos ler e para que outras pessoas o tivessem também. E depois de abrirmos percebemos que havia mais gente a querer ler livros que não encontrava em Macau e foi assim que o negócio se manteve.» Os sócios, entretanto, prosseguiram para outros negócios, talvez mais rentáveis, mas Anson Ng mantém-se firme na vontade de manter aberta uma livraria independente e com uma oferta de livros capaz de satisfazer leitores exigentes. Possa a loucura do mercado de arrendamento baixar para níveis mais sustentáveis e a Pinto’s manter-se-á no seu novo espaço, cumprindo os desígnios que a fizeram nascer há catorze anos, no coração de Macau.

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