Editorial

Parágrafo #25

Sara Figueiredo Costa

Jorge Luís Borges, é sabido, imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca, mas certamente não desdenharia o efeito que uma livraria aconchegante pode ter num leitor devoto. As livrarias independentes têm sofrido rudes golpes nos últimos anos, e o motivo não parece ser o afastamento dos leitores do seu objecto cobiçado, os livros, mas antes as mudanças profundas que o comércio livreiro tem sofrido. Já ninguém precisa de sair do seu sofá para comprar um ou vários livros, desde que tenha uma ligação à internet e um qualquer método de pagamento virtual. Haverá poucos leitores com acesso à internet que não conheçam a Amazon, o gigante que vende quase tudo para todo o mundo e que começou como uma pequena livraria on-line há vinte anos. Os livros, que até há umas décadas se vendiam apenas nas livrarias, podem agora comprar-se com um ou dois cliques no rato, um ou dois toques no écrã, mas também nos hipermercados, bombas de gasolina, estações de correios… Na Europa e nos Estados Unidos, as livrarias que não foram compradas por grandes cadeias livreiras lutam para sobreviver, mas muitas têm tombado no processo, privando cidades e vilas de espaços que sempre foram muito mais do que simples estabelecimentos comerciais. Em Macau não é diferente, mas talvez os preços proibitivos das rendas pesem mais na equação do que a venda de livros on-line. Numa cidade com tão poucas livrarias, um espaço como a Pinto’s, sedeada num primeiro andar do Largo do Senado entre 2003 e 2016, eram um pouco desse hipotético paraíso para qualquer leitor, mesmo que não soubesse ler o idioma em que a maioria dos livros estavam escritos. Quando fechou as portas, no ano passado, temeu-se que fosse mais uma baixa a juntar às muitas que vão sendo registadas em cidades do mundo inteiro, mas a Pinto’s conseguiu voltar a erguer-se, ainda que numa nova morada. Destacamos, nesta edição, a nova vida de uma livraria onde predomina a literatura, a arte, as viagens e os livros ilustrados e que continua a ser, agora na Rua Coelho do Amaral, um espaço que qualquer leitor de Macau devia conhecer.

E porque livros e cidades sempre se combinaram em declinações literárias produtivas, destacamos igualmente o mais recente livro de Xu Xi, escritora que tem em Hong Kong parte das suas raízes e que escreve sobre o território com dedicação, amor, raiva e muita lucidez.

Cumprida mais uma volta no calendário ocidental, despedimo-nos de 2017 com as leituras quase em dia, deixando para o início do próximo ano alguns livros que já não couberam nestes 365 dias. Aos leitores, desejamos um óptimo 2018, de preferência com muitos livros por perto.

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