Entrevista / Livros

DO ÓPIO À SEDIÇÃO

Sara Figueiredo Costa
(fotografia Cristina Azedo)

O novo romance de Fernando Sobral volta a ter Macau como cenário, desta vez em 1851, em plena Guerra do Ópio.

Depois de uma passagem por Goa, num romance que acompanhava os últimos suspiros do império português na Índia, Fernando Sobral regressa a Macau e à construção de um território ficcional onde a presença portuguesa sobressai. O Silêncio dos Céus, publicado pela Livros do Oriente, tem na Guerra do Ópio o contexto histórico para uma intriga onde se cruzam amores perdidos, negócios pouco claros e o projecto utópico de tornar Macau independente. Não é a primeira vez que o autor situa a sua escrita no território. Já em O Navio do Ópio Macau era uma referência fundamental, com a personagem de Miguel de Arriaga a querer fazer de Porto Santo um centro produtor de ópio com ligações a Macau, e em O Segredo do Hidroavião era em Macau que parte considerável da acção decorria, com derivas para Hong Kong e referências à China continental onde decorria a Guerra Civil. Ao Parágrafo, Fernando Sobral explica assim o seu interesse literário por este espaço: «Macau continua a ser, para mim, um referente a Oriente. Por todas as razões. Tem muitas histórias por contar e mistérios por revelar e tem uma ligação à errância portuguesa pelo mundo em busca do seu destino. Por isso, e também pelo meu fascínio pelo imenso Oriente e pelas suas raízes filosóficas e históricas, acaba sempre por cair nas páginas que vou escrevendo. Macau está-me no coração. É quase uma tatuagem. Não consigo, e não quero, apagá-la.»

Ao longo de 165 páginas, acompanhamos a rotina e os devaneios de Diogo Inácio de Freitas entre a vontade de se vingar da sua ex-mulher, a tentativa de ampliar os seus negócios e respectivo lucro e o projecto utópico de tornar Macau um território independente. O ano é o de 1851 e Macau cumpre o seu posicionamento na Guerra do Ópio, olhando para o crescimento de Hong Kong e sonhando com riquezas por alcançar. Os romances de Fernando Sobral enquadram-se facilmente na categoria de romance histórico, o que talvez diga mais sobre a nossa necessidade de arrumar géneros literários do que sobre os livros do autor. Se é certo que, à semelhança do que acontecia em O Segredo do Hidroavião ou As Jóias de Goa, a definição de uma época histórica reconhecível e dos factos associados a um determinado contexto colocam a narrativa de O Silêncio dos Céus nesse espaço, talvez seja mais relevante notar a perseguição de uma ideia de intemporalidade, visível na caracterização psicológica das personagens e nos modos como reagem ao mundo em função dos seus sonhos, desejos e receios. Nas palavras do autor, «o “romance histórico” é uma capa para um olhar quase nómada, e um bocadinho utópico, sobre os labirintos onde os homens e as sociedades se perdem e se tentam reencontrar. Há livros, como O Segredo do Hidroavião, onde havia mais essa lógica temporal (afinal girava à volta de um período histórico muito rico, o pós-II Guerra Mundial e o tráfico de ouro), mas noutros, como este (ou mesmo As Jóias de Goa), é mais notório esse deslizar pelo tempo. O tempo é cíclico, é como as estações. Renasce e perece. E por isso a história, se não se repete, dá-nos leituras muito interessantes sobre o tempo de hoje.» Com os efeitos da Guerra do Ópio a fazerem-se sentir em Macau, percebe-se que há neste episódio histórico o contexto certo para uma narrativa que é sobre as suas personagens, claro, mas igualmente sobre os tropeções da natureza humana em tempos conturbados. «Acho que [a Guerra do Ópio] é um período muito interessante. Redefine o papel da Grã-Bretanha como império e também o da China. Abre definitivamente a lógica de globalização comercial e marítima e a de império que governa com um canhão numa mão e o comércio e os negócios na outra. A East India Company é o símbolo perfeito dessa dupla face do império do dinheiro assente no poder militar. E Macau é apenas um peão nesse jogo em que Portugal já não tem nada a dizer a não ser sobreviver. É essa lógica de sobrevivência que também me fascina muito em Macau.»

Neste romance há referência a uma tentativa, ou antes um projecto, de tornar Macau independente, contra a Coroa portuguesa, mas igualmente perante a grande China. E nesta hipótese ficcional cruzam-se a utopia de um território com características e idiossincrasias tão fortes com uma certa ideia de rebeldia, nem sempre consequente. É nesse cruzamento que o autor encontra o lugar certo para essa tentativa de sedição orquestrada por Diogo Inácio de Freitas e apoiada em segredo por algumas figuras ilustres do território: «A rebeldia face às hegemonias é para mim sempre um valor fundamental. Mas aqui é um delírio, um sonho impossível de concretizar, uma Ilha dos Amores pouco plausível», diz Fernando Sobral. «Em Macau nunca os portugueses poderiam ser deuses, nesse tempo, face à Grã-Bretanha, à França e mesmo à China. Por isso o sonho da independência não passa disso, como a elite que efectivamente domina Macau faz compreender. Macau era autónomo de Lisboa. E permitia a uma elite gerir os seus interesses no meio de poderes fortes que cercavam o território. Mas os portugueses sempre foram assim.»

Os defeitos, as manias, as aspirações de grandeza e as quedas (morais, éticas) de muitas personagens deste O Silêncio dos Céus parecem ser um espelho de características que muitos dizem não terem mudado em Macau. Ainda haverá, entre os portugueses, uma relação ilusória com o território, encarando-o como algo simultaneamente excepcional e inalcançável? Fernando Sobral acredita que sim: «Há uma relação de ilusão com Macau. Entre ser um território perdido nos confins do Oriente a ser uma árvore das patacas, entre ser um local onde todo o nosso passado poderia desaparecer e aquele onde era possível alguém renascer das cinzas, Macau sempre foi um OVNI no espaço sideral português. Portugal tentou renascer no mar e em latitudes outras e Macau (tal como Goa, ou Luanda) pareceram poder ser esse lugar onde era possível concretizar um destino que nunca soubemos definir.» No caso de Fernando Sobral, esse destino parece radicar-se na ficção e sobre a hipótese de regressar a Macau como cenário de romances futuros, o autor responde afirmativamente: «Tenho o material já recolhido para um livro sobre o período pré-II Guerra Mundial, mas não sei se será por aí que vou avançar primeiro. Macau é tão rico que às vezes descobrem-se pepitas quando menos se espera.»

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