Em Foco

A voz de Fan Yusu

Sara Figueiredo Costa (ilustração de C_L_A, fotografias de Sílvia Moldes)

Assinado por uma trabalhadora migrante, um texto espalhou-se como um rastilho pelas redes sociais chinesas, fazendo da sua autora um fenómeno de popularidade que tornou visível um novo espaço literário – com todo o potencial para crescer.

Em Abril de 2017, um texto publicado na rede social We Chat tornou-se viral na China. A sua autora, Fan Yusu, era uma trabalhadora migrante que saiu de Xiangyang (Hubei) para se instalar em Pequim, procurando trabalho e alguma distância da vida familiar dominada por velhas tradições. Contada na primeira pessoa, a história de Fan Yusu podia ser a de milhões de outros trabalhadores migrantes que, nos últimos anos, têm deixado as suas terras de origem em busca de melhores condições de vida nas cidades. Apesar das similitudes partilhadas com tantos outros migrantes, Fan Yusu revela no seu texto uma série de características que lhe conferem uma voz autoral pouco comum, entre a forte consciência do poder da escrita, a bagagem literária que foi adquirindo desde que aprendeu a ler e uma personalidade pouco apta a aceitar sem discussão uma série de regras sociais que continuam a alicerçar as relações humanas na China, nomeadamente no que ao papel das mulheres diz respeito.

«我是范雨素/Eu sou Fan Yusu» circulou em várias redes sociais e sites, primeiro em chinês, depois em tradução inglesa (no site What’s on Weibo pode ler-se uma tradução: https://www.whatsonweibo.com/fan-yusu-我是范雨素-full-translation/). A história de Fan Yusu envolve ruptura familiar, miséria, violência doméstica, mas sobretudo uma auto-consciência de tal forma aguda que encontra na literatura a única forma possível de se plasmar. A narrativa, dividida em seis capítulos, acompanha a saída da autora da sua aldeia e a chegada a Pequim, onde trabalha como babysitter numa família de muitas posses enquanto as suas filhas pequenas permanecem sozinhas na pequena casa que conseguiu alugar no quinto anel da cidade. Texto de muitas camadas, «我是范雨素/Eu sou Fan Yusu» é a história desta demanda por uma nova vida, mas é igualmente o olhar que deambula pela infância e procura reconstruir uma narrativa com sentido, a reflexão sobre as desigualdades e o modo como a elas nos sujeitamos, o pensamento sobre a sociedade chinesa contemporânea e as muitas formas de relacionamento, laboral, económico, mas também familiar e afectivo, que nela cabem.

Em alguns dos sites por onde circulou, a sua publicação foi suspensa pouco depois de ter sido disponibilizada e já com o texto de Fan Yusu a ser replicado e discutido em milhões de entradas e posts. Ao longo das suas linhas, o texto tem muitas referências às condições de vida dos trabalhadores migrantes, bem como ao contraste com o luxo de algumas casas, como aquela em que a autora trabalhou. E não faltam detalhes sobre como o Estado, que deveria assegurar a igualdade de direitos para todos os seus cidadãos, falha redondamente nesta premissa, como acontece com a impossibilidade de os filhos não-registados dos trabalhadores migrantes frequentarem a escola. Talvez por isso o texto tenha sido prontamente retirado, pese embora a sua capacidade de resistência ao surgir uma e outra vez noutros espaços virtuais. O Parágrafo falou com Tiago Nabais, tradutor de chinês que tem acompanhado atentamente a cena literária contemporânea, para tentar perceber o impacto que um texto como o de Fan Yusu poderá ter tido na sociedade chinesa e nos seus mecanismos de controle: É verdade que o texto foi retirado do website, mas acabou por continuar a ser lido noutros sítios. A censura incidiu muito mais na discussão nas redes sociais suscitada pelo que ela escreveu, porque a sua história pessoal, completamente credível para quem vive na China e semelhante à de milhões de pessoas na sua situação, põe em causa o mito de mobilidade social propagandeado pelo governo, que constitui uma parte importante do chamado “sonho chinês”.

Com a publicação de «我是范雨素/Eu sou Fan Yusu», a autora granjeou algum reconhecimento internacional, com jornais como o inglês The Guardian a escreverem sobre si, e neste momento terá assinado um contrato com uma editora chinesa, a 理想国/Imaginist, para publicação de um livro. A sua popularidade trouxe para o espaço literário, habitualmente reservado a vozes com um certo suporte académico ou artístico, uma voz simultaneamente única e capaz de ecoar as histórias de muitas pessoas. Na verdade, outras vozes oriundas de faixas sociais habitualmente sem lugar reservado no meio literário têm vindo a fazer-se ouvir nos últimos anos, como explica Tiago Nabais: «Há também o caso dos “poetas operários”, na sua maioria trabalhadores nas fábricas de Shenzhen e Cantão. Um dos que teve maior destaque foi Xu Lizhi, um operário da Foxconn que se suicidou poucos anos depois da vaga de suicídios que ocorreu naquela fábrica de Shenzhen. Alguns destes poetas foram recentemente traduzidos para inglês na antologia “Iron Moon”, publicada pela White Pine Press.» E se esta realidade associada aos trabalhadores migrantes, à precariedade em que vivem e à especificidade da sua condição (deslocados de casa, afastados da família, sem grande rede de apoio, etc) não estava muito presente na produção literária actual, sobretudo na primeira pessoa, já havia alguns textos e autores que indicavam ser este um caminho inevitável a traçar na literatura chinesa, como confirma Tiago Nabais: «É um facto que não estava muito presente, mas tinham já aparecido algumas vozes vindas dessa realidade e que escrevem sobre ela, como Sheng Keyi. 北妹, ou Northern Girls na tradução inglesa, é um dos seus romances mais conhecidos, descrito por ela como auto-biográfico, onde aborda estes problemas a partir de uma perspectiva feminina. Outro exemplo muito interessante é Lu Nei, um jovem operário da região de Suzhou que escreveu muito sobre a experiência dos trabalhadores migrantes. Algumas das suas obras estão também traduzidas para inglês.» E fora do âmbito da ficção, valerá a pena juntar a esta pequena lista o livro Factory Girls, de Leslie T. Chang, que acompanha duas trabalhadoras migrantes que abandonam a sua terra natal para tentarem a sorte na cidade de Dongguan.

Por agora, Fan Yusu só pode ser lida na internet e poucos trabalhadores que integram a imensa vaga de deslocados em busca de melhores condições de vida na China terão a vocação, a técnica e a oportunidade de transformarem as suas histórias de vida em textos capazes de despertar o interesse de leitores habituados a um cânone literário marcado pelo romance. Apesar disso, não é de desprezar a ideia de que vozes como as de Fan Yusu possam multiplicar-se nos próximos anos, assumindo paulatinamente o seu lugar na produção literária chinesa. Tiago Nabais acredita que sim, destacando as características inovadoras que começam a configurar uma nova forma de escrever:

«Em primeiro lugar, porque a forma como as pessoas das cidades olham para os migrantes está a alterar-se e existe uma maior preocupação com os problemas e injustiças que enfrentam, como foi demonstrado pela reacção à recente vaga de demolições nos subúrbios de Pequim, que afectou inclusivamente o bairro de Picun, onde vive Fan Yusu. Além disso, a escrita dos migrantes pode não possuir o primor estilístico dos escritores mais estabelecidos mas contém uma vivacidade e um realismo que a torna cativante e muito relevante.» Muito longe de um neo-realismo contemporâneo, Fan Yusu escreve sem auto-comiseração nem sensacionalismo, expondo a sua história – dura, com laivos de tragédia, marcada pela precariedade e por alguma violência – de modo cru e tirando partido da sobreposição de cronologias para construir um olhar sobre a sua vida actual que não deixa de ser um olhar sobre a China contemporânea. Longe do percurso habitual escola, universidade, leitura dos clássicos universais, criação de uma voz própria em busca de espaço no meio literário, a autora de «我是范雨素/Eu sou Fan Yusu» avança pela escrita com o impulso maior de quem tem algo para dizer. E não lhe faltam referências nos livros que o cânone ditou ou nos recursos estilísticos que a academia aprovará, mas sobra-lhe a segurança da urgência, escrever o que tem de ser escrito, fazer da narrativa a única coisa que importa, sem dívidas à autenticidade ou a uma qualquer ideia de verdade.

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