Editorial

Editorial #28

Sara Figueiredo Costa

Já não é notícia e as notícias têm esta estranha faculdade de durar muito pouco na memória colectiva. Recordemos, então, que três escritores anunciados para a edição deste ano do Rota das Letras viram os seus nomes retirados do programa pelo facto de não estar garantida a sua entrada no território. Eram eles Jung Chang, autora de Cisnes Selvagens e Mao: A História Desconhecida, Suki Kim, conhecida por ter trabalhado infiltrada na Coreia do Norte depois de publicar o romance The Interpreter, e James Church, autor da série Inspector O e ex-agente da CIA, com ligações à Coreia. Quando a notícia circulou, não foram adiantadas mais explicações pela organização do Rota das Letras que, dias mais tarde, divulgou ter sido o Gabinete de Ligação a transmitir essa indicação, mesmo que nenhum governante, de Macau ou da China, tenha assumido saber algo sobre o assunto. Percebe-se tudo e não se percebe nada. Impedir a presença de escritores num festival que já recebeu, por exemplo, Murong Xuecun é dar um sinal de mudança, e um sinal forte. Há três anos foi possível receber um autor que escreveu várias crónicas manifestando o seu desacordo com diferentes políticas do Governo chinês, mas nestes dias não foi possível escutar ao vivo os três escritores referidos. Por outro lado, soube-se há dias que a conta de Murong Xuecun no Weibo (onde tinha 8,5 milhões de seguidores) foi encerrada e que o autor, perdendo a sua fonte de rendimento, passou a viver da venda de fruta on-line…

Nada de novo haverá a dizer sobre a censura e os seus mecanismos e não há relativismo que a amenize. No espaço da China continental, esse dado não é novo (o que não lhe retira qualquer peso, claro), mas impedir pessoas de falar e escrever livremente num território onde se criou a ideia – ilusória, está visto – de que a liberdade de expressão é uma realidade, torna o futuro de Macau neste capítulo uma incógnita muito escorregadia. Fazê-lo sem que ninguém se apresente como responsável, como se a ideia tivesse emanado não se sabe de onde, é capaz de trazer ecos muito literários a este episódio, com todas as remissões directas e possíveis ao 1984 de George Orwell a acenderem luzes nos neurónios colectivos, mas só pode deixar-nos com o coração nas mãos em relação ao que aí pode vir.

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