Crónica

Escrita na Brisa (Yao Feng)

crocitar de corvos no dia 14 de março

No Departamento de Chinês, o poeta Yu Jian e eu estamos a falar, bastante excitados, do papel da poesia com os estudantes, chegando a compará-la com a heroína espiritual. A poesia é uma arte de transcender: transcender a palavra convencional cuja vida pretende ser mais longa do que a nossa; transcender a imaginação limitada numa piscina em vez do mar; transcender da alma condicionada pela perda da coragem de se tornar um bocado maior do que o universo. Afinal, a poesia é fazer acreditar que um veado é um cavalo quando o poeta insiste em chamá-lo desta maneira, sublinha o poeta de Yunnan, que defende a renúncia à metáfora na poesia. No entanto, ele vive e escreve rodeado por metáforas, por dentro de metáforas. Até ele é uma metáfora de si próprio.

Depois da palestra, fomos dar um passeio pelo campus universitário. Está a chuviscar, mas preferimos ficar molhados. Chegam-nos, das árvores do outro lado do lago, os gritos de pássaros. Devem ser de corvos, afirma Yu Jian, que tem um ouvido melhor que o meu, embora sempre escute o mundo com um aparelho auditivo metido na sua orelha esquerda.

Entretanto, longe daqui, no capital do império, três mil pessoas estão a bater as palmas para uma pessoa. Aplausos calorosos como tempestade e trovoada, o locutor da rádio central deve estar a descrever assim.

Mas não ouvimos nada de aplausos senão uns crocitares de corvos, nesta tarde silenciosa.

Yao Feng
18-03-2018

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