Entrevista

Sem presente e sem futuro: o crime como metáfora do vazio

 

Sara Figueiredo Costa

(interpretação de Cassie Cao, fotografias cedidas pelo autor)

É um dos escritores chineses mais elogiados pela crítica e pelos pares. Em Macau para participar no Rota das Letras, A Yi conversou com o Parágrafo sobre o seu romance A Perfect Crime, mas também sobre a China contemporânea e as mudanças sociais que o país atravessa.

No princípio há a ideia do crime e é o próprio criminoso que nos dá a conhecer os seus planos. Não há mistério: quando o narrador, um jovem estudante, mata a sua colega de turma a golpes de faca, tudo está já esclarecido quanto à autoria e ao modus operandi. Mais do que esclarecido, tudo está revelado e assistimos ao crime com todos os detalhes sórdidos e sem segredos. A Perfect Crime, romance do autor chinês A Yi, não é um policial, mesmo que muitos dos seus mecanismos narrativos tenham origem nos códigos do género.

No lobby de um dos muitos hotéis de Macau, entre mesas douradas e música ambiente a contrastarem com o peso das palavras do autor, A Yi falou ao Parágrafo sobre a sociedade chinesa actual e as suas múltiplas brechas existenciais. «O narrador-personagem deste romance enfrenta um dilema semelhante ao de muita gente na sociedade contemporânea. Toda a gente tem de ser optimista e, com o desenvolvimento tecnológico, toda a gente acaba por se sentir inútil e acaba por tentar encontrar uma forma melhor de viver, mais significativa. Podemos ver isso nos casinos aqui de Macau, vemos os jogadores todos, mas o jogo não tem uma utilização real para a vida de cada um. Na China muitos jovens estão agarrados aos jogos online…»

A história de A Perfect Crime é linear no enredo, mas extremamente densa nas suas muitas possibilidades de leitura. Um jovem pré-universitário, deslocado da sua terra natal e a viver com uma tia numa cidade de média dimensão, enfrenta o futuro sem quaisquer expectativas. Podia tomar todas as decisões relativamente ao rumo que quer dar à sua vida, mas a inexistência de uma rede de afectos ou de um sentimento de pertença não lhe fornecem matéria para tanto. A sua decisão passa por matar alguém, descobrir como é tirar uma vida, escolher uma vítima que faça sentido no seu estranho raciocínio por não fazer sentido algum. A escolha recai sobre uma colega, alguém por quem o narrador nutre um sentimento que nunca chega a desenvolver-se, e a única justificação plausível parece ser o facto de esta rapariga ser importante para algumas pessoas (a sua família, os seus amigos). «É uma metáfora, claro», diz-nos A Yi. «A maioria das pessoas na sociedade chinesa contemporânea perderam esse sentido de pertença a uma comunidade, sentem-se isoladas, afastadas da terra. Devíamos poder viver de um modo mais elegante, mais próximo da arte, da poesia. Hoje, toda a gente se sente abandonada. Aqui em Macau, por exemplo, se não tens um emprego, todas as portas se fecham. A alternativa é jogar, ou parece ser… Não há relação comunitária, isso perdeu-se.»

Escolher um crime e alguns dos mecanismos narrativos do género policial como estrutura para este romance não terá sido um acaso. Durante cinco anos, A Yi foi agente da polícia e parte da sua inspiração para algumas das histórias que já escreveu vem dos muitos episódios que acompanhou ou ouviu contar nesse período. Esta história em particular nasceu da reflexão do autor sobre um homicídio cometido há alguns anos por um rapaz que matou, precisamente, uma colega da escola sem que a polícia conseguisse apurar um motivo. Nessa altura, A Yi começou a pensar no que poderia levar alguém a matar outra pessoa sem um motivo aparente. «O crime é um assunto que sempre motivou muitos escritores. Veja-se o caso de Shakespeare, ou Dostoievski, que usam o crime como contexto para reflectir sobre a sociedade. Era isso que me interessava fazer. O objectivo não é o crime, claro, o que queria era reflectir sobre isto, mostrar a situação das pessoas que vivem nas sociedade moderna, especialmente os jovens.»

O narrador de A Perfect Crime assume sobre a vida um olhar que imaginamos vidrado. Não tem sonhos, expectativas, desejos. Os seus dias sucedem-se e não há uma centelha que o faça levantar-se pela manhã com a sensação de valer a pena estar vivo. Ainda assim, não é o suicídio que lhe atravessa a mente: «O que ele sente é que este modo de viver não está a funcionar, por isso decide jogar um jogo com a polícia, matar uma pessoa e sentir alguma coisa depois, nos vários passos desse jogo e na sua imprevisibilidade. Muita gente na nossa sociedade vive deste modo, sentindo deste modo. Os jovens antes dos 20 anos são educados com a protecção dos pais e dos professores, mas quando chegam a uma certa altura começam a perceber que são como que inúteis, não encontram um espaço na sociedade onde vivem e à qual supostamente pertencem. O conforto financeiro também alterou muitas coisas. Claro, quem está com fome e com frio não terá este tipo de pensamentos, mas quando se tem o suficiente, e muitas vezes mais do que isso, corre-se o risco de perceber que não há mais nada, tudo o resto é vazio. Talvez isso explique o gosto pelo luxo e pelos restaurantes caros de tantos jovens chineses. É que fora disso, talvez não tenham mais nada. Aqui em Macau, por exemplo, é muito interessante observar os jogadores nos casinos e o modo como as suas atitudes reflectem a sociedade. Não sei como é que os trabalhadores dos casinos não são todos escritores, porque a matéria prima que têm diariamente é privilegiada para pensar a natureza humana.»

Percebe-se no discurso de A Yi uma linha de raciocínio que deve muito ao existencialismo e a escritores como Albert Camus, uma das referências assumidas pelo autor. A ideia de que nascemos e morremos sozinhos e a certeza da nossa mortalidade atravessam as palavras do autor, consciente de que o maior desafio do ser humano perante si próprio e os outros é encontrar a melhor maneira de lidar com o tempo e a sua passagem. Quando isso falha, tudo o resto se desmorona, como tantos livros nos confirmam de modos diferentes. «O meu trabalho é profundamente devedor de muitos livros e autores que fui lendo e nos quais me revejo, como Stendhal, Jorge Luís Borges, Franz Kafka, William Faulkner e Dostoievski. O modo como procuro trabalhar a composição dos personagens é uma tentativa constante de reflectir sobre a natureza humana, claro, e sobre a relação entre a complexidade das pessoas e o modo como a conseguimos transformar em linguagem.»

Para além de romances, A Yi tem escrito e publicado muitos contos, alguns deles traduzidos em inglês em revistas como a Granta e jornais como o The Guardian. «Escrevo mais contos porque me ocupam menos tempo. Um romance exige outro fôlego, outro tempo, e acabo por escrever mais contos por esse motivo, mas gosto sempre de me dedicar a formatos maiores.» Recentemente, publicou em chinês o seu mais recente romance, cuja tradução, feita por Nicky Harman, será editada brevemente. Wake Me Up at 9 AM começa com a morte de um aldeão, pouco querido em vida pelos seus pares, e parte desse episódio para uma digressão em torno do desaparecimento das aldeias e de um modo de vida que, durante séculos, caracterizou boa parte da China, enfrentando agora o seu fim.

Os livros de A Yi não abordam nenhum dos temas habitualmente escorregadios aos olhos de quem autoriza ou proíbe a publicação de material impresso na China continental. Apesar disso, A Perfect Crime é de uma dureza implacável perante o modo como o desenvolvimento da sociedade chinesa e o seu galopante crescimento económico são causa directa para a desagregação social e o surgimento de brechas que nenhum pulso firme estatal consegue conter. «Quando publiquei este livro, não tive qualquer problema, mas na verdade é muito imprevisível… Este assunto não é muito sensível, mas do modo como as coisas estão agora, não sei se virá a ser. Nunca podemos saber», diz o autor.

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