Leituras

Um modo especial de olhar para as coisas

O novo livro de Ricardo Araújo Pereira reúne algumas das crónicas publicadas pelo autor no jornal brasileiro Folha de S. Paulo, onde tem tido presença regular desde o ano passado.

Estar Vivo Aleija, publicado pela Tinta da China, percorre uma galeria de temas que anda entre a banalidade dos gestos quotidianos, as funções corporais mais escatológicas do ser humano ou a família e a sua habitual produção de mal-entendidos. Também se fala de jogos de telemóvel, batatas fritas, futebol e crianças. Nada que aparente uma qualquer profundidade existencial, até ao momento em que RAP encontra em cada uma dessas coisas um ângulo inesperado e a transforma numa inquietação momentânea sobre a natureza humana. Sempre dando a entender que semelhante operação se processou de modo acidental, ou não fosse a auto-depreciação um dos mecanismos mais cultivados por este autor.

Num livro publicado há dois anos, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar (Tinta da China, 2016), RAP esmiuça os mecanismos do humor, cruzando episódios da sua vida com uma miríade de citações literárias e outras referências, que vão das comédias televisivas a fotografias ou pinturas. Nesse livro, uma reflexão bem documentada sobre aquilo que nos fez e faz rir, o autor começa por apresentar as três grandes teorias da cultura ocidental sobre o humor – de Platão até Freud – assumindo que nenhuma delas responde cabalmente à possibilidade de definir aquilo que nos faz rir, para depois arriscar uma simplificação: «Esta é a minha hipótese: humor, ou sentido de humor, é, na verdade, um modo especial de olhar para as coisas e de pensar sobre elas.» Será na linguagem, portanto, que se joga o essencial do humor e nas crónicas agora publicadas, Ricardo Araújo Pereira confirma a sua própria hipótese.

Quando analisa os anúncios que a televisão exibe durante a madrugada, a brincadeira de «roubar o nariz» que os adultos insistem em fazer com as crianças ou a evolução das modas relativamente à designação de coisas que talvez se explicassem a si próprias com o nome que sempre tiveram (corrida, depois jogging, agora running, por exemplo), o que RAP procura é exactamente esse modo especial de olhar para as coisas. No essencial, essas coisas mantêm a banalidade que sempre tiveram, ou porque resultam de gestos corriqueiros, ou porque já fazem parte de um sistema que se repete sem questionamentos, mas ao procurar um ângulo inesperado, o autor encontra as ilusões, as ambições e as misérias que fazem de nós humanos, esses animais dotados de linguagem e capazes das maiores criações – artísticas e intelectuais, umas vezes, bélicas e destruidoras, outras vezes.

Sem qualquer pudor em misturar tragédia grega com telenovelas, música pimba com literatura russa, psicanálise com funções fisiológicas, Ricardo Araújo Pereira volta a assumir a sua posição de observador participativo e a elencar manias, surpresas e descobertas profundas sobre a humanidade. Claro, jurando a pés juntos que não tem nada de profundo para dizer e que estes textos são apenas o resultado de muito tempo livre e nada importante a que se dedicar. Como se rir da nossa finitude e, com isso, ganhar os únicos pontos possíveis à inevitabilidade da morte fosse coisa pouca.

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