Reportagem

Biblioteca com jardim dentro

por Sara Figueiredo Costa (com Stacey Qiao); fotografias de Eduardo Martins

Instalada num dos mais antigos jardins de Macau, a Biblioteca de Wong Ieng Kuan traz as árvores para a sala de leitura e os livros para o centro do jardim.

 

Criado no século XVIII como jardim da mansão do comerciante português D. Manuel Boaventura Lourenço Pereira, o Jardim Camões foi, mais tarde, alugado à Companhia das Índias Orientais para a instalação de um viveiro de plantas. Já no século XIX, o genro do proprietário original herdou a casa e os terrenos, tendo acrescentado ao jardim um pombal. Lourenço Caetano Marques será, portanto, o responsável pelo nome que este espaço tem em chinês, 白鴿巢公園, literalmente “o jardim dos pombos brancos”. É também ele que financia a criação de um busto de pedra com a imagem de Luís de Camões, ajudando a reforçar a ideia de que o poeta português teria escrito uma parte da obra Os Lusíadasaqui mesmo, na gruta de pedra onde se instalou a sua estátua.

Andando pelos trilhos que atravessam o jardim, é impossível não reparar na quantidade de gente que pratica exercício físico. Há quem corra, quem caminhe vigorosamente e quem dance, mas há sobretudo muita gente dedicada aos exercícios de Tai Chi e Chi Kung, práticas milenares associadas à longevidade e ao bom funcionamento do corpo. Entre os equipamentos disponíveis no interior do jardim, há vários aparelhos destinados ao exercício físico, quase sempre ocupados, independentemente da hora. E há uma porta, num dos trilhos descendentes do lado direito de quem entra, que conduz a outro tipo de equipamento, este mais dedicado ao exercício mental, mas igualmente à fruição. Na biblioteca do Jardim Camões, inaugurada em 1999, os frequentadores habituais são os mesmos que ocupam as sombras entre as árvores em movimentos ritmados e repetidos. Depois de cansarem o corpo, instalam-se nas mesas da sala de leitura e entregam-se à leitura dos jornais do dia.

Entramos na biblioteca e quase todas as mesas estão ocupadas por leitores debruçados sobre jornais. Nas estantes, há periódicos de Macau, Hong Kong e China continental, em chinês, mas igualmente em português e inglês. A faixa etária dos leitores é avançada, algo que se altera quando passamos a outros espaços da biblioteca. Como explica Elvis Lam Kin Seng, Chefe funcional das Bibliotecas Públicas da parte de Oeste de Macau (西區公共圖書館職務主管林健成), que nos acompanha durante a visita, «a maioria dos leitores são mais velhos, o que se explica pelo facto de este ser um jardim muito procurado sobretudo por pessoas da terceira idade, e esta é uma biblioteca mais pequena do que a maioria das bibliotecas públicas de Macau, pelo que também tem menos leitores». Apesar disso, também a segunda sala de leitura, no espaço dedicado aos livros, está praticamente cheia e só a área infantil, no andar superior do edifício, tem pouca gente quando a visitamos (três leitores, quando chegámos, depois mais dois). Nas estantes, a maioria dos livros estão escritos em chinês, mas há alguns volumes noutros idiomas, nomeadamente inglês e português. São cerca de dezanove mil volumes, divididos pelas estantes de leitura geral e pelo espaço infantil. E entre leitores de jornais e de livros, mais velhos e mais novos, a biblioteca recebe cerca de 460 visitas diárias.

A pequena dimensão do edifício é mitigada pelo aproveitamento do espaço e da luz. As estantes ocupam todo o pé-direito da sala principal, sem desperdiçar área útil para arrumar livros, e os pequenos acidentes topográficos foram transformados em recantos de leitura ou áreas de descanso. «Como o jardim foi criado numa pequena colina, a construção do edifício da biblioteca procurou respeitar as formas e volumes do terreno, adaptando-se ao que já existia», explica Elvis Lam Kin Seng. Desenhada por uma equipa coordenada pelo arquitecto Sérgio Azevedo, a biblioteca do Jardim Camões é um bom exemplo de como integrar uma construção na paisagem sem perder de vista o objectivo utilitário do edifício. «Há muitas estruturas em vidro, de modo a aproveitar a luz natural para a leitura. E há um aproveitamento integrado da paisagem, com as árvores e as pedras do jardim a serem envolvidas pelo edifício.» Esse aproveitamento salta à vista na sala de leitura principal, onde uma das paredes é uma enorme pedra que faz parte da colina onde se situa o jardim. Também os troncos de algumas árvores foram incorporados no edifício, com enormes paredes de vidro a isolarem o interior, por motivos de conforto e higiene, mas deixando à vista a flora como se esta estivesse, de facto, dentro da biblioteca.

Presente no interior da biblioteca, o Jardim Camões surge igualmente como tema para algumas das actividades de programação paralela. Percursos de orientação ou uma caça ao tesouro são propostas recorrentes para os leitores mais novos, que frequentam o espaço sobretudo ao fim de semana, acompanhados pelos pais ou avós. Os percursos começam na biblioteca e as pistas fornecidas levam os participantes aos muitos recantos de um jardim onde é possível aprender sobre botânica, tendo em conta a diversidade de árvores, arbustos e flores, ou sobre a história da cidade. Aos sábados à tarde, há sessões de histórias contadas, ou lidas, no espaço infantil, onde uma das estantes é um comboio que se desloca pela sala.

Apesar de nos referirmos a esta biblioteca usando o nome do jardim onde está instalada, o verdadeiro nome do espaço é Biblioteca de Wong Ieng Kuan, um comerciante que doou parte da sua riqueza para a construção de várias bibliotecas públicas no território. «Wong Ieng Kuan, natural de Guangdong, cresceu na pobreza e não teve oportunidade de ler e estudar em bibliotecas, pelo que, quando pôde fazê-lo, decidiu contribuir para que outras pessoas não passassem essa privação. Depois de emigrar para o Peru, regressou à China e acabou por se instalar em Macau, onde contribuiu para a construção de cinco bibliotecas, quatro na península, sendo esta uma delas, e uma outra na Taipa.» E Luís de Camões, é uma referência para os leitores, maioritariamente chineses? Elvis Lam Kin Seng explica que «para a comunidade chinesa, Camões não tem um significado muito relevante. As pessoas que aqui vêm sabem que é alguém importante, porque tem uma estátua lá fora, mas não têm um conhecimento mais profundo sobre o assunto.»Por vezes, alguns turistas portugueses visitam a biblioteca e pedem para ver livros de Camões, mas aqui não há nenhum. Para os leitores habituais da casa, essa ausência nem sequer é notada.

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