Entrevista

A travessia do século XX, entre sonhos e destroços

por Sara Figueiredo Costa

O novo romance de Pedro Vieira atravessa o século XX de um modo muito íntimo, cruzando a narrativa de várias esperanças colectivas com as histórias de um punhado de personagens que podiam constituir a árvore genealógica de tantos leitores. Com o título a ecoar uma canção de Sérgio Godinho, Maré Alta (Companhia das Letras) desmantela o século passado como se de um navio naufragado se tratasse, recuperando histórias, imaginando pessoas e procurando destinos possíveis (e, às vezes, impossíveis) para o que nos coube em herança.

 

Depois de dois romances ambientados no presente, Última Paragem, Massamá e O Que Não Pode Ser Salvocomo é que nasce a decisão de escrever uma saga familiar, atravessando um século?

Aconteceu por duas razões. Em primeiro lugar, porque o Paulo Ferreira [agente literário, da Bookoffice] me desafiou, e é sempre ele a empurrar-me para a escrita. Estávamos num almoço de tapas em Madrid e ele sugeriu-me que escrevesse uma coisa com um âmbito histórico um pouco mais forte. Vou escrevendo porque sim, não tenho nenhum plano de escrita ou de publicação de romances, e é uma coisa que tenho de fazer fora do âmbito do meu trabalho quotidiano… Quando decidi fazer um livro novo, pensei que gostava de fazer uma coisa diferente do que já tinha feito e isso iria implicar diferenças quer ao nível do universo, quer ao nível do registo, que pensei que poderia moldar de uma maneira um bocadinho diferente. Não sei se isso se reflectiu ou não, e os leitores o dirão, mas era isso que queria e acho que os dois primeiros livros se relacionam um bocado, têm que ver com o mesmo universo, e com este queria fazer uma coisa mais ambiciosa. Também porque conseguia perspectivar que iria ter mais tempo para escrever, e isso foi fundamental para poder fazer a pesquisa e para fazer uma espécie de o meu século XX português, ou um século XX português contado por mim, reflectindo coisas que me preocupam e alguns momentos históricos que queria ter presentes.

E isso nunca te tinha ocorrido antes?

Não. Depois fiquei a pensar a sério nisto e há muitas possibilidades narrativas no nosso século XX. Como noutros, claro… Até porque temos sempre estado em todo o lado, mesmo que numa escala micro, os portugueses estão sempre envolvidos, somos uma espécie de praga. Quando comecei a pensar nisso, também por ter sido, em parte, desafiado, pensei que seria uma oportunidade de criar uma ficção para as minhas raízes familiares, e daí ter-me inspirado em algumas coisas que se passaram com a minha família, e ter romanceado outras, que poderiam ter acontecido, e acabei por juntar as duas coisas: tentar fazer uma narrativa histórica e uma espécie de árvore genealógica fictícia, a partir de um homem que eu nunca conheci e do qual nunca se falou, o meu avô materno, cujo nome só soube no dia do lançamento deste livro. A minha mãe gritou-o do meio da assistência… Este sempre foi um não-assunto e pensei que poderia escrever sobre isso, sobre homens que desaparecem, que fogem, que não estão disponíveis para um compromisso. Na minha origem, já houve figuras com este perfil, por isso resolvi usar esse anónimo como inspiração. Agora já sei que o meu avô se chamava Joaquim. E depois de ter ouvido o nome, nunca mais voltámos a falar do assunto.

Sem querer entrar demasiado em temas familiares e mais íntimos, esse era um não-assunto que já te tinha despertado algum interesse literário?

Não. Era alguém de que não se falava. Parece um bocado caricato, uma pessoa não saber nada de nada sobre o seu avô materno, mas é assim, não faço ideia do que ele fazia e conheço muito poucos pormenores da vida da aldeia da minha mãe, onde ele teve vários filhos, e não faço ideia o que aconteceu depois. O que é curioso… acho que não se falava por motivos de embaraço familiar, pruridos, etc, mas a mim nunca me passou pela cabeça andar a esgravatar, talvez por intuir que era um tema sensível. O que é curioso é que, no lançamento do livro, depois te ter verbalizado isto como um dos gatilhos para a escrita, duas pessoas que estiveram presentes no lançamento vieram-me dizer, no fim, que também não conheciam a identidade dos seus avôs paternos. Se calhar, em determinadas gerações isto é uma coisa relativamente comum, não é excepcionalidade nenhuma, e eu é que resolvi usar como gatilho para uma história.

Esta é uma saga familiar, por um lado, mas também popular, no sentido em que envolve muita gente e foca-se em muitas pessoas, ficcionais ou não, que não costumam figurar nos livros de História. Essa é uma decisão prévia ao romance, falar dessas pessoas que normalmente não são faladas?

Sim, sem dúvida. Para mim, é uma espécie de mandamento dos livros que faço, embora os anteriores tenham sido num universo diferente, quis de alguma maneira pôr nos meus livros personagens, ou figuras, que são menos habituais, acho, pelo menos no nosso âmbito literário. E quando resolvi fazer isto, e porque a abrangência foi maior, quis fazê-lo propositadamente, trazer para a história, embora seja uma ficção, uma série de figuras que não seria óbvio que fossem marcar um século, embora para mim faça sentido que marquem o meu século, ou uma história de Portugal vista pelo meu ângulo. Independentemente do registo, ou da época, o meu ângulo vai ser sempre um pouco por aqui, falar sobre estas pessoas ditas comuns que não costumam figurar nos livros.

No lançamento deste romance, convocou-se o Neo Realismo, um pouco a esse propósito, de personagens e vidas que não ficaram para a história. É uma comparação que te deixa confortável?

Sim, é. Nem sequer tenho a pretensão de conhecer profundamente o período, nem os autores, mas a ideia que tenho é que esses autores foram engavetados numa época e numa intenção e vejo alguma injustiça nisso, porque há determinados livros desse período, que ficou assim engavetado, com uma série de ideias à volta quando se usa o termo Neo Realismo, que realmente poderão ter ficado datados, sim, mas outros não. Se ler agora O Cavalo Espantado [de Alves Redol], que comprei há pouco tempo, faz muito sentido lê-lo hoje, e haverá outros que nem tanto. Revejo-me um bocado na intenção desses autores. Claro que havia estilos distintos, não me parece que possamos falar de um bloco unitário de escritores, mas nalgumas intenções revejo-me, realmente, e isso faz parte do meu papel de escrita. Não acho que faça parte do papel da literatura, isso é uma coisa pretensiosa, mas em relação às coisas sobre as quais quero falar, faz parte. Se calhar deixou de se falar de classes, da vida das pessoas, das suas aspirações, mas isso para mim faz sentido. Há muito pouco tempo li As Vinhas da Ira, e até tinha lido outras coisas do Steinbeck de que não tinha gostado demasiado, e fiquei maravilhado com aquilo. É de uma sofisticação literária… faz-se um retrato social muito vincado e com uma elegância extrema. É isso que ambiciono fazer, portanto vou continuar a tentar.

Há uma série de acontecimentos históricos que se reconhecem neste romance, como a tentativa de golpe na Marinha Grande, em 1934, ou a Guerra Civil de Espanha. São acontecimentos que envolvem um certo grau de utopia, de esperança, e que acabam por fracassar, de diferentes modos. Essa ideia de fracasso interessa-se?

Muito. Aliás, esse episódio da Marinha Grande… a partir do momento em que decidi escrever o livro nestes parâmetros, um dos episódios que veio logo ao de cima foi esse. Cruzei-me com uma fotografia de presos desse dia, sem nomes, anónimos, e achei que podiam ser umas pessoas quaisquer, e foram, românticos, iludidos, ingénuos, se calhar, que se envolveram naquilo, e senti uma espécie de inveja alheia daquelas pessoas, no sentido em que podiam ser familiares meus, que não foram, mas que eu gostava que tivessem sido. Esse episódio diz-me muito, precisamente porque era uma coisa que se percebeu muito rapidamente que estava destinada a falhar e, no entanto, houve uma série de pessoas que resolveram avançar. Num contexto em que momentaneamente se ultrapassaram divisões históricas, como entre comunistas e anarquistas, que sempre se deram muito mal, mas que, naquele 18 de Janeiro, acharam que poderiam fazer uma coisa em comum. Uma coisa que naturalmente se estilhaçou, mas eles não deixaram de avançar com aquilo. A utopia durou horas, nem sequer foram horas, e eu quis pegar naquilo, porque acho bonito e triste ao mesmo tempo e acho que é uma matéria literária profunda.

É uma das heranças do século, esse capital de esperanças esboroadas?

Sim, acho que é. Foi, de facto, um século histórico, ainda que se olharmos para os outros séculos, isso também se verifica… Foi um século de muita violência, com as duas guerras devastadoras, mas também foi um século de muitas melhorias. E foi um século de muitos fracassos, de muito voluntarismo que por razões várias morreu na praia, ou nem sequer na praia, em muitos casos, ainda a nadar, e daí este sentido de maré alta, com as ondas a virem, por vezes, demasiado grandes para nós. Esses fracassos vincam o século, sim, não só português. Muita esperança e muitas desilusões.

E depois há Salazar, que não é uma figura central no livro, em termos de enredo ou personagens, mas que atravessa toda a narrativa de Maré Alta como uma espécie de espectro, mesmo depois de morto. Ainda somos assombrados por Salazar?

Acho que sim, e que ainda vai assombrar durante algum tempo. Tenho esse sentido muito vivo por relações de proximidade, por questões familiares que poderiam ter corrido de outra forma se não fosse essa herança, esse estado de alma, que perdurou e ainda perdura de muitas formas, com o medo, o peso, o receio de arriscar, algo que de uma forma muito sagaz o Salazar nos conseguiu incutir mesmo depois da morte, o que é uma coisa que não deixa de ser notável, ainda que seja muito revoltante, ao mesmo tempo. Salazar deixou mesmo uma herança muito pesada. Houve outras pessoas que foram líderes absolutos durante muito tempo – embora este esteja no topo dos tiranos em termos de durabilidade – mas conseguiu durar ainda mais tempo e isso provoca-me alguma inquietação, como é que ainda temos tanto lastro do doutor de Coimbra, do homem providencial…

As notícias que vamos vendo diariamente parecem ameaçar um certo eco de coisas que já vimos acontecer, ou que sabemos que aconteceram no século XX. No lançamento deste Maré Alta alguém dizia que este podia ser o livro que o século XXI devia ao século XX. Já saímos realmente do século XX ou ainda lá estamos, de certa forma?

Acho que não saímos. Também não sei se na transição de outros séculos, até porque não pudemos assistir, isso não terá acontecido igualmente, porque os calendários não têm assim tanta importância, as coisas são mais um continuum, com avanços e recuos, mas diria que nesse sentido o século XX não acabou. Vejo mais o século XXI na revolução tecnológica do que na revolução mental. E estamos a ver uma espécie de reposição teatral um bocadinho preocupante, sim. De repente, pode ser que haja um qualquer golpe de asa que mude tudo, como tem acontecido noutras épocas, não sei… Mas ainda somos muito devedores, até numa espécie de lógica relacional, do que vem de trás, vivemos uma série de décadas de um modo quase tampão, para evitarmos males maiores, o que conseguimos fazer, notavelmente durante muito tempo, na Europa – apesar de episódios como a guerra da Jugoslávia, que aconteceu no coração da Europa, ainda que com muita gente a olhar para o lado. Tivemos um período excepcional que parece estar a esboroar-se, sim, e acho que continuamos a ser tributários dos males – e também dos bens – do século passado. Só vejo o século XXI no cumprimento de algumas utopias tecnológicas e não tanto na relação entre as pessoas.

No fundo, era o que nos anunciavam quando éramos pequenos e se falava do século XXI

Exacto. Ia ser a modernidade, íamos voar, enviar fotografias à distância, comunicar com qualquer pessoa do mundo de modo instantâneo. Tudo isso aconteceu, mas o nosso arranjo mental é mais ou menos o mesmo. E depois vemos coisas que lemos nos romances distópicos do século XX a acontecerem agora, fora da literatura… não me parece que tenha havido um grande rompimento de um século para o outro.

Há uma ideia muito forte neste livro que passa pela redenção, e que atravessa os acontecimentos históricos, familiares, pessoais, envolvendo uma das personagens principais e ligando-a ao seu passado. Essa ideia de redenção já era estrutural quando começaste a pensar no livro ou a narrativa foi fluindo e acabou por ir nesse sentido?

Obedeceu a um plano inicial, sim. Quando comecei a pensar nas personagens que iam povoar o livro, esse era um aspecto decisivo desde o início e acabei por conduzir a história nessa direcção. Ainda há poucos dias revisitei o caderno onde defini a estrutura do livro e essa ideia forte da redenção, como se fosse uma deferência para um gesto que tinha acontecido no passado, era central no livro. Nessa altura não sabia ainda como ia resolver a questão, mas sabia que essa intenção era central.

Essa organização prévia de uma estrutura acontece sempre?

Comigo, sim. Na escrita, sou muito organizado, embora no resto não seja… É um método que vem da necessidade, porque não conseguiria organizar-me de outra forma, tenho de ter as coisas relativamente definidas antes, como se tivesse primeiro os ossos do livro e depois acrescentasse a carne e a pele. Portanto, aquela ideia de as personagens ganharem vida e decidirem o que acontece, comigo não se passa. Não há cá conversas com personagens com vontade própria, sou eu que decido e as pesronagens morrem quando eu quero e vivem se eu quiser! Mas houve alguns detalhes em que quis escrever mais ou menos sobre uma personagem, um pouco ao sabor da própria escrita, mas a estrutura mais forte já estava definida previamente.

Há personagens que surgem em diversos momentos e que são figuras relativamente conhecidas da História, ainda que não sejam as que temos como principais na nossa narrativa comum, como é o caso de Israel Anahori ou Robert Brasilliach. Esta forma de as convocar para a narrativa, de um modo que não as destaca enquanto personagens históricas, mas antes as integra naturalmente na história das personagens que inventaste, também foi pensada previamente?

Sim. São personagens sobre as quais eu li e acabei por achar que fazia sentido que integrassem uma narrativa deste género. Acabam por ser figuras secundárias, ou terciárias, do século mas que, numa determinada escala, tiveram uma importância fulcral. E algumas delas estavam já destinadas ao fracasso, agora que me ponho a pensar nisso… se calhar tenho uma certa atracção por isso, por esse romantismo… vou especular um bocado, mas se calhar é uma espécie de orfandade por não ter tido uma vida dessas, uma entrega assim. São figuras dramáticas, que tomaram decisões drásticas e que sofreram as consequências disso, e na minha visão consigo olhar para elas e perceber que foram homens e mulheres com maiúscula no espectro onde se moveram. Não tiveram medo das consequências drásticas: vida ou morte. Apostaram as fichas todas e alguns morreram em consequência disso. Achei que seria interessante, num livro com esta abrangência temporal, integrar essas pessoas.

Sentes-te órfão desses gestos de entrega total?

Se calhar, estou agora a ver que sim. Tenho um bocado de inveja, ao mesmo tempo, talvez porque não teria coragem para fazê-lo, coragem mesmo no sentido físico, não só moral. Sinto-me devedor de figuras destas e deste drama do século, destas decisões de tudo ou nada. O Churchill, que é sempre usado pelos conservadores como figura de referência, teve os seus “feitos” colonialistas na Índia, com as coisas muito feias que fez por lá, e chegou a determinado momento e disse que se era para combater aquele tipo [Hitler], ia ao inferno e fazia um pacto com o diabo. E fez, com o Estaline. Realmente, às vezes sinto uma certa cobiça desse dramatismo, desses momentos extremos em que tens de decidir qual é o teu lado. Na minha vida comum, isso não é uma coisa que se coloque muito e talvez acabe por usar a ficção para isso.

Quando chegamos ao fim do livro, já estamos nos anos 90 e a sensação que fica é a de estarmos perante uma série de destroços, emocionais, sociais, políticos. Haverá outra forma de chegarmos a algum lado, não só literariamente, mas também naquilo a que chamamos vida real?

Não consigo destrinçar as duas… Sou um bocado fatalista, embora tente contrariar isso no dia a dia. Tenho uma natureza mista, se calhar. Tendencialmente, acho que seria um fatalista a tempo inteiro, mas tentei contrariar isso no meu crescimento. No território literário, tenho tendência a carregar mais nessas tintas… porque vivemos um bocado nesses escombros. Conseguimos trepar alguns deles, com outros deixamo-nos soterrar, e no território da ficção, prefiro que andemos aos tropeções, embora tente que isso não aconteça no dia a dia. Podemos sempre fazer alguma coisa para contornar isso, mas no território ficcional esse lado fatalista vem mais ao de cima, sim. Não sei se é uma espécie de purga, mas também acho que a escrita é o território mais natural para essas coisas acontecerem. De resto, no dia a dia, estamos ocupados em mantermo-nos à tona e em sermos pessoas melhores, uns dias sim, outros dias não, sem sucumbirmos a esse negrume.

É a outra herança do século XX, esses destroços?

Sim, e uns quantos edifícios de cartão que muito facilmente podem juntar-se, de um momento para o outro, aos destroços. Mas espero estar enganado em relação a isso e espero que isso só se materialize na ficção.

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