Entrevista

O lugar turbulento e meigo da adolescência

por Sara Figueiredo Costa

Ana Pessoa e Joana Estrela criaram o diário ficcional de uma adolescente e nele resgataram, entre textos, imagens e fragmentos inventados, essa lenta agitação que nos marca a vida de uma forma tão intensa.

O texto de Aqui É Um Bom Lugar venceu o Prémio Maria Rosa Colaço de literatura juvenil em 2018. Depois da distinção, Ana Pessoa desafiou Joana Estrela a integrar uma nova fase desta história, criando as imagens que transformariam uma narrativa com palavras num livro onde texto e imagem surgem intrinsecamente ligados. Aqui É Um Bom Lugar, editado pela Planeta Tangerina, passou a ser este objecto difícil de catalogar: não é um livro ilustrado, não é uma banda desenhada, não é uma história que viva inteiramente da narrativa. O que é, então? Talvez um diário feito de palavras e imagens, umas vezes desenhadas, outras recortadas e coladas. O registo quotidiano deTereza, uma rapariga de 17 anos, a caminho dos 18, que partilha as suas inquietações mais profundas lado a lado com as observações mais insignificantes, os abismos emocionais do crescimento e da chegada à vida adulta misturados com a espuma dos dias e os episódios que hão-de cair no esquecimento. É um livro que é um caderno, recolhendo peças soltas e alguns estilhaços que vão dando forma, não exactamente a uma história, mas aos momentos que se sucedem na vida desta rapariga. As livrarias hão-de arrumar o volume em formato quase de bolso e cantos arredondados na secção infanto-juvenil, como quase sempre acontece aos livros que têm adolescentes como personagens. Faz sentido que assim seja, talvez, para que os leitores mais novos, capazes de se identificarem com Tereza, não o percam de vista, mas seria justo que não ficasse encerrado numa qualquer gaveta etária. Afinal, os leitores adultos também já tiveram dezassete anos e aquilo que neste livro se enuncia é matéria intemporal, memória e invenção, medo e descoberta, aquela mesma matéria de que continuamos a ser feitos mesmo que muitas décadas tenham passado sobre o impacto desses primeiros abalos da alma.

Além de escritora, com quatro livros publicados até ao momento, Ana Pessoa é tradutora, ofício que exerce em Bruxelas, e escreve regularmente no blog belgavista.blogspot.comMary JohnSupergigante e O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca, todos com edição Planeta Tangerina, antecederam este Aqui É Um Bom Lugar e firmaram o seu nome na constelação dos autores de literatura para os mais jovens. Joana Estrela vive no Porto e o seu trabalho anda pelos territórios da banda desenhada e da ilustração. PropagandaA Rainha do Norte ou Os Vestidos de Tiago são alguns dos livros que publicou e uma boa montra para se conhecer a diversidade de estilos, registos e modos narrativos com que trabalha. Vivendo as autoras em lugares distantes, não foi possível juntá-las para uma entrevista presencial. As tecnologias da comunicação engendraram outra hipótese para que pudéssemos ouvir falar deste livro na primeira pessoa: uma conversa a três, via internet, sem tempo medido nem constrangimentos formais. O resultado é este, sem outros filtros que não o apagamento de alguns emojis que acompanharam comentários mais animados sobre problemas técnicos (rapidamente resolvidos).

Este é um livro criado a quatro mãos, com a particularidade de não ser exactamente um livro ilustrado, mas antes uma narrativa em fragmentos onde texto e imagem são interdependentes, ambos contribuindo decisivamente para o avançar da narrativa. Como foi o processo de trabalho, tendo em conta que o texto foi escrito antes?

Ana Pessoa: Há uns anos fiz uma recolha de textos que tinha escrito e no ano passado percebi que não tinha de salvar textos, mas antes pedaços, fragmentos. Foi um trabalho muito invulgar, mergulhar dentro de cadernos e de textos do blogue. Depois de acabar o texto, falei das minhas dúvidas com a Joana e logo depois falámos com o Planeta Tangerina.

Joana Estrela: O texto e a imagem foram feitos em fases diferentes. Acho que o facto de o resultado final ter ficado tão interdependente foi, primeiro que tudo, graças à Ana, que deixou muito espaço no texto, ou no livro, para ser explorado por mim nas ilustrações. Então, quando comecei a trabalhar no livro, o texto já estava acabado, ou quase acabado, e o que eu fiz foi um processo parecido com o da Ana, de recolha pelos meus diários gráficos

E esses fragmentos eram coisas dispersas ou já tinham sido pensados neste registo diarístico, colocado na voz desta personagem?

AP:Nenhum dos textos foi pensado para este registo diarístico, mas muitos textos nasceram nesse registo (nos meus cadernos, no blogue). Eram temas recorrentes. A chuva, o vento, a noite.

JE:E, no meu caso, muitos dos desenhos do livro são coisas que já tinha desenhado nos meus diários e que achei que ficavam bem com o texto. Houve outras coisas que desenhei de propósito.

AP:A certa altura, comecei a achar que estes fragmentos podiam ser um diário gráfico. Mas não sabia como dialogar com a imagem. Como é que se escreve sem desenhar? E a Joana, para me ajudar nesse processo, enviou-me uns desenhos.

No fim do livro, há uma referência ao facto de os cadernos, e da estima que ambas nutrem por eles, terem sido fundamentais para o nascimento desta história.

AP:Os cadernos foram mesmo fundamentais para este livro. No caso dos textos, o facto de navegar pelos cadernos permitiu-me criar associações que não existiam antes. Ou criar interrupções inesperadas (cortar as unhas dos pés, fazer uma pergunta fora do contexto, etc).

Ana Pessoa (fotografia de Henrique Bandarra)

Podemos dizer que os cadernos são, para ambas, um objecto fundamental de criação, reflexão, registo, e que isso ajudou muito a construir este livro, ainda que este livro conte a história de uma rapariga que não é nenhuma de vocês?

AP:Sim! Há qualquer coisa nesta relação com o caderno que, para mim, é fundamental. É um espaço de intimidade, de experimentação. E também de oração, quase: escrevo muitas vezes as mesmas frases. Isto só acontece quando escrevo à mão. No computador, não é assim. Não racionalizo muito este processo, só sei que faz parte do meu processo.

JE:Sim, para mim também são importantes, como um sitio onde posso falhar e fazer desenhos menos bons ou mais rápidos.

AP:Isto também fez parte da construção do livro. Queríamos que ele fosse o mais próximo possível de um caderno, daí os cantos redondos e o facto de todo o texto ser escrito à mão (pobre Joana…). Também não tem numeração de páginas.

JE:Sim, eu queria que parecesse credível como diário gráfico

Agora para a Joana, especificamente: foi difícil criar um universo visual tão íntimo, tão centrado naquilo que se passa dentro da cabeça, para uma personagem que foi criada por outra pessoa?

JE:Não, na verdade, não foi difícil, porque eu acho que também a criei, pelo menos em parte. Dei-lhe a cara e desenhei a casa dela e os amigos… Havia toda uma dimensão que eu podia explorar por mim, com desenhos, e acho que houve poucas páginas em que tenha ficado sem saber o que poderia desenhar. Mas aconteceu, por exemplo, numa em que a protagonista fala da concretização pessoal e era suposto desenhar algo que representasse concretização pessoal. No final, desenhei um pacote de batatas fritas e acho que isso era uma piada muito ao jeito da Tereza.

AP:Já foram vários os leitores que nos disseram que tiveram dificuldade em perceber o que tinha nascido antes: se o texto, se a ilustração.

Então, por um lado houve uma identificação pessoal com a personagem que a Ana Pessoa criou e, por outro houve novas camadas que a ajudaram a ficar como nós, leitores, a conhecemos, é isso?

JE:Sim. Eu senti que, quando o livro me chegou às mãos, faltava uma metade, por isso a Tereza não é uma personagem que estivesse completamente definida e a quem eu tive de me adaptar.

A adolescência é um bom lugar?

JE:Ui, a minha não foi!

AP:É um bom lugar, sim! A vida adulta é uma seca.

Joana Estrela (fotografia de Victor Bravo Lobo)

A infância tem longa tradição de presença, enquanto tema e tempo de formação de memória, na literatura e nas artes. A adolescência ocupa um lugar igualmente definidor naquilo que podemos vir a ser?

AP:São turbulências fundamentais. Estamos tão preocupados com a nossa existência… é tudo tão intenso.

JE:Sim. E acho que é quando começamos a entender melhor a nossa identidade, o nosso lugar no mundo. Há esse crescimento interno, claro, mas acho que também abana muitas coisas na maneira como te relacionas com as pessoas à tua volta, com o teu mundo

AP: Tambémpenso que sim, mas eu escrevo sobre isso, não teorizo. A minha relação com a adolescência é uma relação de espontaneidade e de vida. Não tenho propósitos. Não quero definir. Acho que não me estou a explicar muito bem… A adolescência é o momento em que experimentamos o mundo com a nossa sensibilidade, sem sabermos muito bem ainda quem somos, o que viemos cá fazer. É um espaço de dúvida e de insegurança. E de enorme procura, também. Tudo é novo e intenso. Eu quero escrever sobre isso, mas na verdade não fico a pensar muito sobre a adolescência, se é isto ou aquilo. É o que é. É explosivo, sobretudo. Se calhar sou um bocado adolescente neste processo.

E é isso que te interessa em termos narrativos, o facto de ser um período de experimentação e erro? Pergunto isto pelo facto de escreveres, de facto, muito a partir do olhar da adolescência.

AP:Sem dúvida. Essa confusão constante, os momentos explosivos, os erros, as mágoas, a possibilidade de mudares, de cresceres, de te encontrares. Ainda não és cínico/a. Ainda não tens a sensação de que viste tudo. Essa energia criadora, inventiva, é o que me interessa.

Sem querer entrar em perguntas pessoais, ou naquele jogo de descobrir o que é “verdade” no livro, foram à vossa própria adolescência buscar algum material?

AP:Vou folhear o livro para tentar perceber isso…não. É tudo muito ficcionado.

JE:Da minha parte não, a não ser que os 20 ainda contem como adolescência tardia…

AP:Mas estou aqui a ver que a minha infância, sim, está presente no livro.

É inevitável que se usem esses vestígios da infância quando se escreve na voz de uma personagem, mesmo que não tenha muito que ver com a pessoa que somos?

AP:A mim interessa-me sempre muito perceber de onde vêm estas personagens. Que experiências tiveram? Que mágoas? Que conquistas? Somos sempre o resultado de tudo o que aconteceu. Adoro este regresso ao passado. Somos essas pessoas todas ao mesmo tempo, a que andava de bicicleta aos oito anos, a que se apaixona pelo professor de Educação Física, a que apanha o metro, a que escreve sobre isso…

JE:Acho que há um filtro por onde passa tudo o que fazemos, mesmo o trabalho que é ficcional. E esse filtro é feito pelas nossas experiências, personalidade… deve ser difícil que algumas dessas coisas não passem para o que escrevemos ou desenhamos.

AP:A escrita permite esse encontro: o que fomos, o que somos

É um regresso ao passado sem saudosismo, mas com um olhar consciente do presente e do futuro em aberto, também?

AP:Acho que é um regresso muito saudosista. Ou melhor, muito… romântico. Literário, talvez.

Escrevo por cenas, acho, momentos que estão de certa forma congelados: a fotografia dos oito anos, a adolescente à janela, as frases da mãe, os momentos de escrita (insónias, por exemplo). Isto no caso deste livro, mas penso que se aplica este processo a todos eles. Há qualquer coisa de cinematográfico nisto, também, imagens muito visuais, que não são bem a vida como ela é. São representações. Símbolos.

A memória é uma matéria infinita, sempre a projectar-se nos tempos todos, passados, presentes e futuros?

AP:Para mim, tem sido. Estou sempre à espera que ela acabe, mas ela não acaba.

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