Reportagem

Hong Kong: as cidades também se lêem

por Sara Figueiredo Costa (texto) e Eduardo Martins (fotografias)

A literatura tem dado às cidades uma imagem que as reflecte, ou muitas imagens, por vezes contraditórias, num caleidoscópio de visões que pertencem por direito ao imaginário comum de quem habita cada urbe. Em Hong Kong, entre arranha-céus e pequenos mercados de rua, a literatura também se insinua pelas esquinas, revelando ecos do passado, memórias afectivas e todos os futuros ainda por inventar.

 

É longa a lista de livros sobre Hong Kong. Se nos ficarmos pela literatura, continua a ser uma vasta bibliografia, que inclui obras em chinês e inglês cuja leitura permitirá muitas visões do território. A restrição idiomática obriga-nos a reduzir a escolha para os livros escritos em inglês ou traduzidos para esta língua e ainda assim permanece vasto o panorama. Com alguns desses livros, sobretudo romances, mas também alguns relatos não ficcionais, percorremos a cidade com a disposição de procurar os seus ecos literários. Por vezes, são os cenários descritos na ficção que se apresentam, mas há também espaço para memórias, histórias comuns tantas vezes recontadas que se transformaram em factos para quem as conta e ouve, lugares que sempre existiram e que a literatura fez nascer novamente, como se fosse a primeira vez.

A visão literária das grandes cidades nasce entre o final do século XIX e o início do XX, acompanhada de perto pelo Modernismo e as suas múltiplas expressões artísticas. Ao longo da primeira metade do século passado, essa relação profunda entre romance e urbanismo contribuirá para a criação de monumentos literários como Ulisses, de James Joyce, Rayuela, de Julio Cortázar, ou Manhattan Transfer, de John dos Passos, entre outros. Na literatura chinesa, é após o Movimento do 4 de Maio que essa linha se instala aos poucos, com Shangai a predominar como cenário de romances onde a cidade acaba por ser personagem, enredo e desenlace. Hong Kong não terá um romance-monumento como estes, talvez, mas tem seguramente a sua vida, as mudanças que foi experimentando e muitos dos seus lugares plasmados na prosa de muitos autores. De tal modo que alguns desses lugares, que podemos visitar de corpo presente, parecem ter sido criados pelos autores que os usaram na sua obra.

O funeral do Sr. Chuck

Atravessando a muralha de arranha-céus espelhados que marcam a divisão entre a vista de Victoria Harbour e o coração administrativo de Hong Kong, numa estranha mistura de caminhos pedonais aéreos, centros comerciais elegantes e escritórios paredes meias com hotéis, inicia-se a subida em direcção à estação inferior do Peak Tram. Antes de se tropeçar na longa fila de turistas que já começa a formar-se para a subida do Peak, chega-se à Catedral de St. John. É aqui que decorre uma das cenas essenciais de Kowloon Tong, romance de Paul Theroux cuja trama acompanha os anos imediatamente anteriores ao regresso de Hong Kong à administração chinesa. Sócio do falecido pai de Bunt, protagonista do romance, o Sr. Chuck morre misteriosamente depois de Bunt ser aliciado para vender a empresa paterna a um homem de negócios chinês. O funeral decorre nesta catedral anglicana, respeitando as convicções religiosas do defunto que pertencia à minoria de chineses devotos da fé cristã.

No dia em que visitámos a catedral em busca dos melhores ângulos para o registo fotográfico não esperávamos encontrar um cenário semelhante ao que Paul Theroux descreveu. No entanto, foi isso que aconteceu: coroas de flores brancas rodeavam a porta principal e, lá dentro, a solenidade de todas as missas fúnebres envolvia o caixão que reuniu tantas pessoas. O respeito pela privacidade alheia travou-nos a entrada na igreja, mas não deixámos de escutar o coro que acompanhava a missa e de perceber que, tal como nas cerimónias fúnebres ficcionadas por Paul Theroux, também aqui se velava alguém que, sendo chinês, seria cristão. A coincidência não passa disso mesmo, mas coloca a realização desta reportagem sobre a Hong Kong literária no modo certo, cruzando aquilo que vamos vendo com a leitura dos livros que nos vão orientando os passos.

Abandonando o sossego trágico que envolve a catedral de St. John, seguimos para a Jackson Road, ali perto, à procura do ponto de visão descrito por John Le Carré em The Honourable Schoolboy, o mesmo ponto de visão obtido por Jerry Westerby, o jornalista e espião que trabalha para George Smiley, protagonista deste romance de espionagem, quando inicia uma das suas tentativas de localizar os responsáveis por uma imensa operação de lavagem de dinheiro com ligações à União Soviética. Eram os tempos da Guerra Fria e a trilogia em que este romance se insere é um exemplo clássico dessa bipartição do mundo e Hong Kong oferece-se como cenário ideal para o segundo tomo desta trilogia, cruzando espiões de várias origens, cenários considerados exóticos para os leitores ocidentais e pontos nevrálgicos das muitas trocas financeiras, nem sempre lícitas, que alimentam as engrenagens de um certo mundo. Relendo a passagem de Le Carré e levantando os olhos para o curto horizonte oferecido pelo centro de uma cidade onde pululam os arranha-céus, lá está a torre do Bank of China que Jerry Westerby admira enquanto atravessa a estrada. Admiramo-la nós também, sabendo como divide opiniões entre os habitantes de Hong Kong desde a sua construção. E a ela havemos de voltar mais adiante, num outro ponto literário da cidade, quando regressarmos a Paul Theroux.

Procurando Susie Wong

Ainda do lado da ilha, acompanhamos a linha de água do porto em direcção a Wan Chai. Quando Richard Mason escreveu um dos mais icónicos romances passados em Hong Kong, esta era uma das mais activas zonas de prostituição da cidade. Os vestígios persistem em alguns néons há muito apagados, anunciando um ou outro clube de dança onde, suspeita-se, se faria mais do que dançar, mas a área é agora, de acordo com a Time Out e outros guias culturais e de entretenimento, uma das zonas da moda para saídas nocturnas. Não esperamos pela noite para conhecer os novos bares e restaurantes locais e dirigimo-nos imediatamente para o número 72 da Gloucester Road. É aí que se ergue o pequeno hotel que serve de cenário principal ao livro The World of Susie Wong. E o que, no romance de Mason, era um edifício modesto onde funcionava um hotel, ou o que o protagonista imagina que seria um hotel, quando procura um lugar barato para viver, descobrindo rapidamente que se trata, afinal, de um bordel, é agora uma imensa unidade hoteleira, mais um arranha-céus a preencher a paisagem de Hong Kong. O nome, no entanto, mantém-se: Luk Kwok. Na recepção, o gerente atende ao nosso pedido. Queremos visitar um dos andares superiores, de modo a encontrarmos a vista para Victoria Harbour que Mason tantas vezes descreve no seu livro, a partir do quarto ocupado por Robert Lomax, o protagonista. Sem pestanejar perante o pedido de dois jornalistas que explicam estar a escrever sobre Hong Kong a partir da sua presença em livros de ficção, o gerente leva-nos a um quarto vazio no 19º andar e oferece a janela e aquilo que a vista dali alcança ao fotógrafo. Só que a vista, agora, só pode alcançar dois enormes edifícios situados do outro lado da rua, erguidos num pedaço de terra que terá sido roubado à água entretanto, e uma estreita nesga de espaço entre eles que permite, com a boa vontade característica de quem lê um livro e acredita poder aceder aos seus cenários no mundo real, vislumbrar as águas de Victoria Harbour. De regresso ao piso térreo, o gerente explica-nos que do velho hotel que terá inspirado Richard Mason só sobram as fotografias expostas nas paredes do lobby. Olhamo-las e os sais de prata devolvem-nos imagens da década de 30 do século passado, um edifício modesto à beira da água, nenhuma sombra de Susie Wong.

O dragão adormecido

A bordo do Star Ferry, chegamos ao outro lado de Victoria Harbour. A vista de Central a partir desta margem é o mais famoso cartão postal da cidade e figura igualmente em parte considerável das obras literárias que têm Hong Kong como pano de fundo. Em Dear Hong Kong, de Xu Xi, é a vista que a narradora tem da janela da sua casa de infância e é também uma das memórias que guarda do pai, que amava aquele porto como um lugar único no mundo e que elogiava as suas particularidades comparando-o com outros, Buenos Aires, Rio de Janeiro, lugares que soavam exóticos para a narradora e que ainda assim não superavam aquele cenário. À janela do apartamento onde moravam, em Tsim Sha Tsui, pai e filha partilhavam a imagem das águas banhando os edifícios de Central e o registo desses momentos em letra de forma transforma o cenário naquilo que os espaços têm de mais precioso quando se cruzam com as nossas vidas, a sua capacidade de serem memória, memórias, vestígios não apenas de um passado, mas igualmente daquilo que nos faz pessoas.

Nos túneis do MTR, as carruagens levam-nos até Kowloon, à Waterloo Road, onde se ergueria o edifício da fábrica do pai de Bunt emKowloon Tong, de Paul Theroux. Regressamos a esse romance sabendo que não há nele uma indicação precisa de onde seria a fábrica que origina todo o enredo e que é impossível localizar um edifício que só existe na ficção. Ainda assim, é essencial encontrar um lugar de onde se vejam as montanhas que se erguem sobre Kowloon, o dorso do dragão de que falava o geomante consultado pelo pai de Bunt aquando da compra inicial da fábrica. Esse geomante sugeriu o lugar mais auspicioso para instalar a empresa de fardas e tecidos a partir de velhas crenças e tradições associadas ao feng shui, introduzindo na narrativa algo que faz parte da cultura de Hong Kong e que vários outros geomantes, não necessariamente ficcionais, apontaram em tempos: a construção do Bank of China, esse mesmo edifício que mirámos a propósito do livro de Le Carré, terá sido a estocada fatal na harmonia da cidade, ferindo para sempre o dragão composto por estas montanhas, um dragão cujo dorso se estenderia de Kowloon até à ilha de Hong Kong e cuja respiração mitológica seria o garante do equilíbrio elementar da cidade. Estará talvez aqui, e não tanto na estética arquitectónica do edifício, a explicação para o conflito de opiniões sobre o edifício do Bank of China, cuja construção se estendeu entre 1985 e 1990. Do alto do viaduto pedonal que atravessa a Waterloo Road, só conseguimos ver as montanhas a Norte, uma parte ínfima do dorso do dragão que terá sido ferido mais a sul, já em Central. A imagem completa do animal talvez só exista nas palavras que Theroux põe na boca do geomante, mas entre as reverberações térmicas produzidas pelo calor que se faz sentir e o cansaço que já se instala, talvez se vislumbre um ligeiro movimento ao longe, num dos cumes. Alguma escama que ainda reage ao que o tempo terá feito à cidade.

Distopias e fruta fresca

Nas ruas de Mong Kok, o movimento de pessoas e carros enquadra os edifícios numa espécie de Babel. Não é apenas a mistura de idiomas, com o cantonês a dominar entre o inglês, o mandarim e várias línguas de outros países asiáticos, também os prédios parecem remeter sempre para um cenário onde um passado mítico e um futuro distópico se cruzam, colocando o espaço da ficção no coração daquilo que podemos ver e que a cautela (e a física quântica) nos impedem de chamar, com segurança, de realidade. Há ecos de Blade Runnerem muitas esquinas… Ainda que sem referências ou coordenadas que permitam aferir localizações exactas, é este o cenáriode vários dos contos que Dorothy Tse reuniu no volume Snow and Shadows. É o primeiro livro da autora a ser traduzido para inglês e nele se cruzam as sombras de uma Hong Kong feérica com muitos dos pesadelos da contemporaneidade, aqui como em qualquer grande cidade do mundo. E descendo a Nathan Road, entre Mong Kok e a zona de Jordan, reconhecem-se os cenários por obra do espaço e das pessoas que o ocupam. Na rua, não há vestígios da violência que habita os contos de Dorothy Tse, mas os fantasmas que povoam cada parágrafo parecem insinuar-se na estranheza de certas fachadas, no contraste entre prédios altos e becos esconsos, no modo cru como certas cenas se desenrolam – um homem que empurra um carrinho de carga em tronco nu, deixando ver uma enorme tatuagem com caveiras nas costas, o lixo que se acumula numa esquina, mesmo ao lado de uma ourivesaria cheia de brilhos e ar condicionado, uma entrada de prédio sombria que talvez desemboque em dezenas de lojas e serviços perfeitamente legais que não se vislumbram da rua.

Perto da Shanghai Street, uma das mais antigas ruas de Hong Kong, alcançamos um mercado ao ar livre. Procuramos as cores, os cheios e os gestos descritos por Xu Xi em Evanescent Isles, quando aponta os mercados da cidade como lugares privilegiados para testemunhar a vitalidade do cantonês e a sua eterna renovação com novas palavras, novos jargões, um frenesi de comunicação. Encontramos as fileiras de bancas cheias de fruta fresca, legumes de muitas origens e uma ou outra montanha de roupa, mas a nossa ignorância não permite mais certezas do que a de estarmos a ouvir falar cantonês. Numa das bancas, vendem-nos as tangerinas mais doces e minúsculas de sempre e não conseguimos mais do que perguntar o preço e não errar demasiado nas moedas que temos de entregar em troca. Mais adiante, uma mulher vai empilhando bancos de plástico à porta de um estabelecimento de comidas, certamente para aproveitar o movimento do mercado e estender um pouco a esplanada, enquanto um gato aproveita esses mesmos bancos para subir para o letreiro de um outro estabelecimento, instalando-se lá no alto. Olha-nos com desprezo felino e deixa-se ficar a aproveitar o sol que, entre dragões apunhalados e ameaças recorrentes à identidade de um território fiel a si próprio, também brilha em Hong Kong.

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