Entrevista

Inventar a própria vida no coração da vida alheia

por Sara Figueiredo Costa (fotografias de Eduardo Martins)

Chama-se Autobiografia, mas o novo livro de José Luís Peixoto é um romance, o sexto numa obra que conta com perto de vinte títulos. Por entre as costuras do texto, o livro traz a vontade clara de desafiar as leis do género romanesco e questionar as fronteiras e os labirintos que se abrem entre a ficção e a realidade.

 

Quando Pilar entrou no escritório, Saramago acreditou que apenas estava a ler sobre a entrada de Pilar no escritório. Não parecia haver fronteira que separasse o texto da vida.”, lê-se na página 120. Um livro poderá ter este poder, mesmo que seja num só leitor?
Sem dúvida. Como leitor, já me aconteceu muitíssimas vezes assistir à inexistência dessa fronteira: textos que se vivem e que, depois, se transformam num tipo de memória que não tem qualquer diferença daquela que é deixada pelos acontecimentos experienciados. A ocorrência dessa sintonia texto/vida, depende tanto do texto como da vida. Por um lado, o texto tem de ter a competência necessária para provocá-la; por outro lado, tem de haver uma disponibilidade específica por parte de quem lê para aceitá-la. E, claro, por ser um momento íntimo, acontece apenas com um leitor de cada vez.


Foi essa aniquilação de fronteiras que quiseste alcançar com este livro?
Em certa medida, sim. Comecei por tentar construir um texto que exigisse o envolvimento de quem lê, que lançasse desafios que só podem ser cumpridos com a atenção e análise do leitor e, depois, levá-lo pelo cruzamento de várias dimensões, revelando gradualmente diversas ilusões, nomeadamente em relação à identidade da voz que nos conta a história e de vários elementos desse mesmo enredo.


José, um dos personagens, vê-se incumbido de escrever a biografia de Saramago. Esse trabalho terá muitos papéis nesta história, mas um deles é ser desculpa para que José não escreva o seu segundo romance. Revês-te, agora ou no passado, nesta procrastinação da escrita?
Sim, claro. Há sempre muitas desculpas para não fazermos aquilo que nos amedronta. Escrever e publicar é um processo que envolve diversos receios, a começar pelas expectativas. Não apenas as dos outros, que podem ser um nuvem que paralisa, mas também as nossas próprias expectativas: escrever é concretizar e, a partir do momento em que o fazemos, temos de nos confrontar com um resultado concreto que, muitas vezes, fica aquém do desejávamos. Perante isso, com frequência, parece mais fácil arrumar aquela gaveta que não abrimos há meses. No entanto, só avançamos quando enfrentamos esses fantasmas, quando não os deixamos crescer. De certa forma, escrever um romance pressupõe essa insistência, essa resistência.


Sem revelarmos segredos, a dada altura torna-se claro que este livro está a ser escrito, e lido, por várias das suas personagens, à medida que estas progridem na história, como uma sucessão de caixas dentro de caixas, algumas com espelhos… O que é que procuravas enquanto ias escrevendo esta espécie de abismo em sucessão contínua?
Tentei utilizar amplamente os recursos que a literatura permite e, assim, alargar o próprio objeto literário. Tentei que a progressão do texto não acontecesse apenas ao nível do enredo mas, também, no âmbito do próprio corpo do texto, como se fosse alargando em dimensões. Quando olhamos para algo, imaginamos implicitamente os ângulos que não estamos a ver, damos essas convicções por adquirido. Aquilo que tentei fazer foi, gradualmente, ir revelando alguns desses ângulos escondidos e mostrando os equívocos em que estávamos a incorrer por avaliá-los superficialmente.


É inevitável questionar-te sobre o título deste romance. As regras da boa leitura crítica mandam afastar autor e texto, mas este é um livro que ironiza sobre várias regras, de leitura e de escrita, que força as fronteiras da verosimilhança, mesmo que não fuja do realismo (nos lugares, por exemplo, ou nos acontecimentos históricos), e que desafia as categorias temporais, colocando à literatura dilemas semelhantes àqueles que podemos experimentar perante alguns princípios da física quântica… Quanto é que há de ti em Autobiografia, ou quanto é que há de ti para além daquilo que haverá em todos os livros que já escreveste?
Essa é uma pergunta sem resposta. Pessoalmente, sinto-me muito cómodo com a impossibilidade de respondê-la de forma absoluta. Ou seja, se eu próprio fizesse um exame do texto com o intuito de separar o ficcional do autobiográfico, não creio que fosse capaz de cumprir essa tarefa de modo rigoroso. Até naquilo a que chamamos “realidade”, o factual se mistura com o ficcional, criando toda a sorte de variações. No âmbito de um texto com estas características, parece-me impossível alcançar essa separação. E, sim, é muito adequada a comparação com algumas questões da física quântica. Não apenas em relação ao contraste ficção/autobiografia, mas também no que toca a questões de espaço e tempo, ou às fronteiras entre narrador(es), autor e personagens.


Há neste livro uma série de interrogações – os segredos – e outros tantos questionamentos. Comecemos pelas interrogações: a ideia do suspense, de manter o leitor agarrado até todas as revelações acontecerem, atraiu-te desde o início?
Em qualquer livro, o leitor tem de possuir uma razão para continuar a leitura. Essas razões serão pessoais, naturalmente, dizem respeito em primeiro lugar ao próprio leitor, às suas vontades e expectativas. No entanto, quando estamos perante um texto narrativo, é muito comum que o leitor queira saber o que vai acontecer a seguir. Para tal, é importante que se estabeleça uma certa imprevisibilidade, que se coloquem perguntas e que se dê a entender que, nas próximas páginas, haverá respostas. Foi o que tentei fazer.


Os questionamentos são vários, mas salta à vista a reflexão sobre a ideia de literatura, os seus limites, as suas possibilidades. Foi a partir desta reflexão que se estruturou o romance ou havia uma história prévia, uma narrativa, que acabou por desaguar nesta reflexão?
Naquilo que é fundamental, costumo levar em simultâneo a construção do enredo e as reflexões que pretendo provocar. Ou talvez seja mais correto dizer que as ideias fundamentais, o tema, vão ligeiramente à frente. O enredo e os diversos elementos que constituem o texto são normalmente decididos em função dessa “visão” central. Ainda assim, também é verdade que, em algumas ocasiões, não resisto a seguir certas linhas narrativas ou a incorporar certos elementos que, necessariamente, acabam por influenciar também essas ideias.


Apesar da dimensão meta-literária, e da reflexão sobre a literatura que atravessa o livro, não faltam enredos, histórias quotidianas e pequenos dramas familiares a Autobiografia. Enquanto romancista, alimentas-te mais dessa criação de enredos ou da experimentação com a linguagem? Ou não separas um do outro?
O modo como entendo o género romanesco, pressupõe todos esses planos. A característica fundamental que compõe esse género literário é a complexidade, que é o mesmo que dizer a contradição, o paradoxo. Também assim é a própria vida. Parece-me que uma das primeiras ambições dos romances é sugerirem a vida, apresentarem um modelo que possa levar-nos a saber mais sobre ela.


Os lugares onde decorre a narrativa, a vida das personagens, as idas e vindas nos transportes, de carro, para fora de Lisboa, o quotidiano em lugares como Bucelas ou a Quinta do Mocho, tudo isso dá a Autobiografia um cenário onde muitos leitores se reconhecerão. Foi um modo de manteres uma linha de verosimilhança total, daquilo a que poderíamos chamar realismo, contrastando com os momentos em que uma certa ideia de fantástico, ou talvez de realismo mágico, se insinua?
Trata-se de mais uma dimensão que contribui para aquilo que o romance tenta ser. Para mim, foi muito interessante criar um certo retrato dos anos em que decorre a acção do romance, no final dos anos 90. Por um lado, porque tenho memórias muito vívidas desse tempo; por outro lado, porque me parece que as mudanças que aconteceram em relação ao mundo e ao Portugal de então são muito interessantes e merecem reflexão. Ao mesmo tempo, tentei um diálogo com vários retratos literários da cidade de Lisboa, inclusivamente aquele que é feito por José Saramago no romance
O Ano da Morte de Ricardo Reis. Tentei trazer para estas páginas uma Lisboa um pouco mais alternativa e, no entanto, tão quotidiana. Com menos espaços icónicos do turismo da cidade, mas sobretudo com espaços bem conhecidos de quem aqui vive.


Há um diálogo entre José e Saramago, os dois Josés centrais em Autobiografia, que apresenta uma série de ideias sobre a literatura. Uma delas: “Não se julgue proprietário do romance apenas porque o escreveu, esse é um equívoco primário.” (pg. 259) O tempo afastou-te desse equívoco, como escritor, ou sempre soubeste que era assim?
Desde que publiquei o primeiro texto na vida, que nunca me senti exclusivo proprietário das interpretações possíveis acerca daquelas palavras. Isso não significa que não mantenha e cultive a minha relação pessoal com os textos. Na verdade, essa relação é fundamental também para que não os perca de vista, para que os outros não se apropriem definitivamente deles. Quero com isto dizer que todos os que lerem um texto e se envolverem com ele são seus proprietários.


Preocupa-te ou diverte-te pensar que partes consideráveis deste romance podem ser lidas como documento, como se não fossem uma ficção?
Acho essa forma de leitura como muito divertida e sinto que, de certa forma, o texto se cumpre quando tal acontece. Recentemente, numa apresentação do livro, dei a entender que partilhava um dos vícios do protagonista, o que não é verdade. Achei interessante fazê-lo, pareceu-me que era uma continuação da proposta do livro. Apesar de ser uma informação imprecisa, não senti sequer que estava a faltar à verdade, uma vez que a quantidade imensa de mal-entendidos que existe a esse nível é incontrolável. Como autor, a escrever textos deste tipo, tenho de estar preparado para essa avalanche. Acho-a inclusivamente muito positiva. Gosto da arte que coloca o próprio artista em causa.


Ganhaste o Prémio Literário José Saramago com o teu primeiro romance, Nenhum Olhar. Sofreste, como José sofre neste livro, com o peso e as expectativas de escrever o segundo?
A forma como lidei com esse dilema foi escrever um romance que, a certos títulos, é bastante radical. Refiro-me a
Uma Casa na Escuridão. Assim, não foi exatamente no segundo romance que senti essa pressão. No entanto, tenho-a sentido em todos os livros. Suponho que seja o tipo de dor com que nos habituamos a viver. E há que encontrar estratégias para ultrapassá-la, par vencê-la. Pessoalmente, tento resolver esse problema fixando-me nas convicções específicas que me levam à escrita de cada romance. São elas que fazem a diferença e que ajudam a ultrapassar os muitos obstáculos que se lançam no caminho.

E o próximo, já está a nascer?

Neste momento, tenho várias possibilidades em perspectiva. Tenho avançado um pouco em cada uma delas, mas estou ainda à espera que uma se destaque. Quando tal acontecer, restar-me-á seguir essa obsessão até às últimas consequências.

 

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