Editorial

Editorial #46

«O futuro entupiu», lê-se num dos muitos cartazes incluídos no novo livro saído do arquivo reunido por José Pacheco Pereira, Que Força É Essa, uma edição da Tinta da China organizada por Helena Sofia Silva. Alguém desenhou as letras desse cartaz para uma manifestação ocorrida em 2013, no Porto, contra o governo de então e contra a presença da Troika em Portugal, mas a frase tem um eco desconfortavelmente duradouro e nem é preciso sair à rua para o sentir. As frases escritas por tantas mãos anónimas nos cartazes que vão marcando presença nas ruas, ora em manifestações dirigidas a um determinado governo, ora em protestos mais abrangentes, pelo tema ou pela sua universalidade, retratam um certo Portugal entre 2012 e o ano que agora vivemos. O muito que mudou e o tanto que ainda parece exigir mudança. Da presença da Troika aos problemas ambientais, dos direitos LGBTI+ à transformação das cidades em imensos parques turísticos onde é cada vez mais difícil viver, tudo isso tem reflexos múltiplos em descartáveis pedaços de cartão onde alguém decidiu inscrever algumas palavras, que agora nos ajudam a olhar para trás, sabendo que não deixamos de, nesse gesto que parece apenas retrospectivo, olhar igualmente para o momento em que vivemos. Aqui ao lado, em Hong Kong, também se fazem cartazes como estes e talvez alguém os recolha e permita que outras leituras para além da urgência das palavras de ordem venham a surgir por entre o emaranhado de letras, imagens e caracteres.
Sem tempo, espaço ou oportunidade para palavras de ordem, nem por isso os trabalhadores migrantes que enchem as fábricas de Shenzhen (e as de tantos outros sítios) deixam de usar a sua voz para outros a possam ouvir. A poesia chinesa escrita por migrantes tem vindo a ocupar um espaço cada vez maior nas redes sociais onde a literatura também é assunto e há vários casos de autores, sobretudo poetas, com obra entretanto publicada em revistas literárias ou em livro. Nesta edição, detemo-nos no trabalho de alguns autores que trabalham ou trabalharam em Shenzhen, e no modo como a sua poesia reflecte a realidade laboral em que vivem, sendo também muito mais do que essa realidade laboral. Nos versos de Xu Lizhi (許立志) ou Guo Jinniu (郭 金牛) estão o desenraizamento e a estratificação social, estão os preços baixos dos componentes que fazem funcionar a tecnologia sem a qual achamos que não podemos viver (e o preço a pagar por tamanha pechincha), e estão a solidão, a melancolia e o desamparo que nos fazem pertencer à mesma espécie humana. Talvez pudéssemos não o esquecer.

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