Leituras

Broken Wings, de Jia Pingwa: a nostalgia do campo e os direitos humanos

por Stacey Qiao

O mais recente romance de Jia Pingwa, Broken Wings, chegou ao mercado de língua inglesa, abrindo o debate sobre a mobilidade social, as migrações e, sobretudo, a ideia persistente de que as mulheres cumprem apenas um papel no equilíbrio demográfico chinês, sem que os seus direitos sejam tidos em conta.

A nação mais populosa do mundo tem também um dos rácios entre sexos mais desequilibrados de que há registo. Na China continental, a preferência cultural pelos rapazes ao longo de milénios, aliada, mais recentemente, às rígidas políticas de planeamento familiar, foi muitas vezes um incentivo para o aborto selectivo, conduzindo a uma proporção de 115 rapazes nascidos por cada 100 raparigas. O resultado é um desequilíbrio notório entre sexos, com os homens superando estatisticamente as mulheres em dezenas de milhões. As consequências deste desequilíbrio são muitas, da distorção do mercado de trabalho ao aumento do crime violento em que as mulheres são vítimas. E entre as muitas faces desse crime está o sequestro e o tráfico de milhões de mulheres, vendidas a homens de aldeias empobrecidas que procuram cumprir o desígnio aparentemente inescapável do casamento.

Foi esta situação que Jia Pingwa (賈平凹), um dos mais conceituados escritores chineses, escolheu para tema do seu romance Jihua(《極 花》). Contando a história de uma mulher vítima do tráfico, Butterfly, foi publicado pela primeira vez em episódios na revista literária Literatura do Povo (人民文學), e posteriormente publicado pelas Edições Literatura do Povo, em 2016. Em Maio deste ano, Broken Wings, a tradução inglesa assinada por Nicky Harman, foi publicada pela ACA e chegou ao mercado internacional.

	No livro, Butterfly é sequestrada na cidade onde vive e vendida como esposa a um homem de uma vila remota, de onde a maioria das mulheres partiu em busca de uma vida melhor. O homem aprisiona Butterfly numa caverna, submetendo-a a diversas torturas e a uma violação que terá como consequência o nascimento de um bebé. Anos mais tarde, Butterfly é finalmente resgatada pela sua mãe e pela polícia. De regresso à sua cidade de origem, torna-se impossível suportar os comentários, os dedos apontados e a urgência de voltar a encaixar-se na sua vida passada, como se nada tivesse acontecido. Num processo mental complexo, que caracteriza muitas vítimas de abusos e torturas, Butterfly decide regressar à aldeia onde viveu aprisionada e onde a sua vida mudou indelevelmente.

A trama é pesada e torna-se ainda mais perturbadora quando se lê, no posfácio, que o romance se baseia na história verídica da filha de uma vizinha de Jia: «Durante dez anos, nunca contei a sua história a ninguém, mas era como se tivesse uma faca a perfurar-me o coração. Sempre que penso nisso, a ferida torna-se mais profunda. E hoje não tenho como saber em que aldeia essa mulher vive ou como passou a última década.»

	A história de Broken Wings é narrada do ponto de vista da mulher sequestrada, revelando as suas tensões psicológicas e retratando o mundo exterior sempre a partir da sua visão. No entanto, tal como o autor esclareceu no lançamento do livro, embora o romance seja sobre uma mulher vítima de tráfico, este não é um livro sobre o tráfico humano, como explicou o autor no lançamento, em declarações registadas pelo Beijing Youth Daily: «Neste romance, continuei a dedicar-me ao pensamento e à reflexão sobre a situação do campo.»
Representante da chamada “literatura das raízes” (鄉土 文學), Jia Pingwa mostrou sérias preocupações com o declínio das comunidades rurais nos últimos anos. «O campo está em declínio há muito tempo. Tenho visitado aldeias nas montanhas e planaltos e descobri que muitos destes lugares já estavam desertos, sem habitantes, apenas ruínas e ervas daninhas até aos joelhos. Estão a desaparecer. Estamos a perder o campo, estamos a perder a nossa terra natal. O que aconteceria com a China se deixasse de ter, efectivamente, uma sociedade rural? Não sei, e é doloroso pensar nisso», disse o autor, emocionado, durante o lançamento do livro.
	Jia Pingwa teme o desaparecimento das aldeias, como escreve no posfácio de Broken Wings, apresentando-o como consequência de existirem poucas mulheres em comparação com o número de homens: «Em áreas remotas, os homens que não têm a capacidade, as ferramentas ou o dinheiro necessário para sair são deixados para trás, ficando na aldeia e tentando ganhar a vida a partir do que a terra dá. Não têm possibilidade de se casar. Estive em aldeias compostas quase inteiramente por homens sem esposa. Um homem que conheci, com a locomoção afectada desde que caiu de um penhasco e partiu a perna, enquanto colocava a instalação eléctrica que traria luz à aldeia, disse-me: “ A minha família vai desaparecer por minha causa e a nossa aldeia desaparecerá também, ainda durante a nossa geração”. Não conseguia pensar em nada para lhe dizer...»

Capa da edição inglesa de “Broken Wings”, traduzida por Nicky Harman (na fotografia)



	O apego de Jia ao campo é compreensível, sendo o autor originário de uma pequena vila na província de Shaanxi e tendo-se sempre apresentado publicamente como um camponês (mesmo tendo morado na grande cidade de Xi'an por quase cinco décadas, assumindo importantes cargos provinciais e nacionais na Associação de Escritores e como delegado do Congresso Nacional do Povo). Por outro lado, a sua análise do declínio da ruralidade e a não condenação efectiva do sequestro de mulheres deu lugar a muitas críticas, colocando o autor no centro de uma feroz controvérsia. No posfácio do romance, Jia Pingwa refere-se aos raptos, condenando-os, ao mesmo tempo que os desculpabiliza pelo contexto de desequilíbrio demográfico entre sexos nas aldeias: «O sequestro de mulheres e crianças é brutal e cruel e deve ser reprimido. Mas sempre que essa repressão ocorre, os traficantes são severamente punidos e a polícia é elogiada pelos resgates heróicos, ninguém menciona o fato de que as cidades saquearam riqueza, força de trabalho e mulheres das aldeias. Ninguém fala sobre os homens deixados para trás nos terrenos baldios, definhando como cabaças abandonadas, florescendo uma vez e depois morrendo sem descendência.»
	Ora, é inegável que muitos homens em aldeias pobres têm poucas perspectivas de encontrar uma mulher que lhes permita constituir família, mas será realmente o resultado da “pilhagem” da cidade? Deixando de lado o fato de que a China rural tem uma percentagem muito maior de abortos seletivos e infanticídio feminino do que as cidades – resultado da cultura patriarcal de clãs profundamente enraizada –, vale a pena notar que as mulheres das aldeias partem para as cidades não porque algum raptor as obrigue, ao contrário de Butterfly, coagida em sentido inverso, mas em busca de uma vida melhor. Portanto, pode não ser uma coincidência que as últimas três décadas tenham testemunhado a um tão grande número de mulheres do campo migrando para as cidades e também à redução drástica da taxa de suicídio entre as mulheres do mundo rural em quase 80%. Como descreve um relatório de 2014 publicado pelo The Economist, «a mudança para as cidades para trabalhar, mesmo que as coloque num estatuto de cidadãs de segunda classe, foi a salvação de muitas jovens de meios rurais, libertando-as das pressões dos pais, dos casamentos forçados, do domínio das sogras e de vários outros condicionamentos comuns nas vidas de quem nasceu em meios rurais pobres.»
	Certamente que a sociedade rural é uma componente indispensável da cultura chinesa tal como a conhecemos, mas Jia Pingwa, na tentativa de resolver um grave problema social – e Broken Wings é um exercício que se enquadra nessa tentativa, pela via literária – , falha em ver as outras causas, o resto do contexto, ansiando simplesmente pela recuperação da boa e velha cultura rural de prosperidade controlada. Afinal, a solução para as vidas dos homens que querem casar-se e não encontram com quem e a manutenção dos espaços rurais não podem ser instalados sobre a miséria de um grupo de mulheres – que também são pessoas, o que já não deveria ser preciso referir em 2019... 

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