Destaque / Literatura Infantil e Juvenil

A China à conquista de jovens leitores

por Stacey Qiao

O prémio Os Meus Livros Infantis Favoritos 2019, da Biblioteca Infantil de Shenzhen, colocou em evidência o peso das traduções no mercado editorial chinês de livros para os mais novos.

No passado dia 27 de outubro, o Centro Cultural de Shenzhen anunciou os títulos dos livros que integram a selecção de 2019 de “Os Meus Livros Infantis Favoritos” (我 最 喜愛 的 童書), uma espécie de prémio colectivo que resulta de uma votação feita por crianças de toda a China. Já na sua sexta edição, “Os meus livros infantis favoritos” é um prémio colectivo instituído pela Biblioteca Infantil de Shenzhen (深圳 少年兒童 圖書館) em 2014, que gradualmente se foi associando a outras instituições ligadas à leitura pública e à promoção do livro. Este ano, a selecção do prémio foi co-organizada por trinta e nove bibliotecas provinciais e municipais de diferentes regiões da China.
De acordo com Song Wei, bibliotecária da Biblioteca Infantil de Shenzhen, num texto publicado no site daquela instituição, os candidatos aos prémios de 2019 tinham de ser trabalhos impressos em livro, publicado em chinês entre Janeiro e Dezembro de 2018, excluindo clássicos e reimpressões. No total, 5.455 livros foram recomendados por 129 instituições e 207 indivíduos. Do júri, composto por nove pessoas, faziam parte escritores, promotores da leitura, académicos, fotógrafos, especialistas em psicologia infantil, entre outros. A escolha do painel de jurados recaiu sobre três dezenas de livros, dez em cada categoria: Literatura, Livro Ilustrado, Livro didáctico. Posteriormente, 100.000 exemplares dos livros escolhidos foram comprados pelas bibliotecas participantes e distribuídos por 312 escolas em 39 províncias e cidades da China, com várias actividades conjuntas entre escolas e bibliotecas realizadas para promover a leitura entre as crianças. Foram emitidos 1.309.111 votos de jovens leitores, determinando as distinções de ouro, prata e bronze em cada categoria.

O peso das traduções
Olhando para os livros seleccionados para a votação do público, é notória a predominância de títulos traduzidos. Entre os trinta livros, vinte e dois são traduções de idiomas estrangeiros, predominantemente inglês, japonês, francês e italiano. E dos nove livros vencedores, sete são traduções. Na categoria Literatura, por exemplo, os três vencedores são traduções: o ouro foi entregue a A História do Planeta Azul, de Andri Snaer Magnason (Islândia), com tradução de Liu Qingyan; a prata foi para Confissões de um Amigo Imaginário, de Michelle Cuevas (EUA), traduzido por Huang Hongyan; e o bronze foi para O Túnel dos Bosques, de Eiko Kadano (Japão), traduzido por Wei Wen. Os únicos dois livros originalmente escritos e publicados na China estão na categoria dos Didácticos: a medalha de ouro foi para O Meu Encontro Maravilhoso com a Natureza: Procurando Monstros, de Song Dazhao e Huang Qiaowen, ilustrado por Li Yaya; e o bronze distinguiu 20.000 Anos de Casas de Banho, escrito e ilustrado por Guang Zhu e Xia Xiaocha.
Este enorme desequilíbrio entre livros traduzidos e obras criadas localmente é um reflexo fiel do mercado de livros para a infância e juventude na China. Um artigo de 2017 escrito por Peng Wei e Wang Jiayun, divulgado no Publishing Journal, observa o desequilíbrio de livros infantis originais e traduzidos no mercado, analisando as estatísticas de vendas no Dangdang, um importante site de comércio electrónico chinês especializado em livros. Segundo o artigo, a proporção das vendas de livros infantis originais e traduzidos revela uma predominância clara das traduções, que também mostram clara vantagem competitiva em termos de preço unitário e classificações atribuídas pelos compradores on-line.
A dimensão do mercado editorial chinês no que aos livros infantis e juvenis diz respeito é avassaladora, como se descreve no mesmo artigo: «A China publica 600 milhões de exemplares de livros infantis todos os anos, o que faz deste mercado o maior do mundo. O valor anual da produção foi crescendo ao nível dos dois dígitos ao longo de dez anos consecutivos, tornando os livros infantis o sector mais dinâmico do mercado editorial, aquele que apresenta um crescimento mais rápido e o mais competitivo na indústria editorial chinesa.» Tornou-se evidente que os livros infantis são muito lucrativos, o que deveria atrair mais autores e ilustradores locais a produzir mais obras, capazes de interessarem o público leitor. No entanto, o mercado é dominado por livros estrangeiros há vários anos, com 6.000 a 8.000 títulos publicados todos os anos.

Vendas polémicas
Em Abril deste ano, o escritor Zheng Yuanjie 鄭淵潔, cujos livros para crianças venderam quase 400 milhões de cópias nas últimas décadas, assinou um longo artigo na rede social Weibo onde apontava uma explicação possível para o problema da falta de originalidade dos livros para a infância feitos na China, um problema que, segundo o autor, seria o responsável pela predominância absoluta das traduções neste sector do mercado editorial. Nesse artigo, Zheng Yuanjie criticava aquilo a que chamou «marketing do campus», um procedimento habitual nas escolas primárias e secundárias da China. «Há uma enorme bolha nas vendas de livros infantis na China, uma bolha que envolve actos ilegais», escreveu Zheng. «O artigo 25 da Lei de Educação Obrigatória da República Popular da China estipula que nenhuma escola pode obter benefícios com a venda de bens ou serviços ou de qualquer forma disfarçada. No entanto, alguns autores de livros infantis conspiram com editoras, livrarias e escolas, vendendo seus livros durante o horário das aulas, tudo sob o pretexto de “realizar palestras”. »
Parte considerável das das críticas de Zheng nesse artigo apontavam directamente para Cao Wenxuan 曹文軒, também escritor de literatura infantil e vencedor do Prémio Hans Christian Andersen em 2016 – Zheng sustentou que a atribuição deste galardão teria sido o resultado de mais de 4 milhões de yuans de dinheiro dos contribuintes gastos no financiamento das obras de Cao em vários línguas estrangeiras… Na lista de 2018 dos Escritores Mais Ricos de Livros Infantis da China, Cao ficou em terceiro lugar, com uma renda anual de royalties de 27 milhões de yuans, mas Zheng argumentou que grande parte do dinheiro veio de “palestras” nas escolas, nas quais os alunos eram solicitados a fazer encomendas de livros até um certo valor, de modo a poderem usufruis de um «contacto cara a cara com o famoso escritor».
«Esses meios de venda são inéditos noutros países», escreveu Zheng. “«Isso sufica o interesse das crianças pela leitura, impedindo o surgimento de jovens autores, corrompendo os professores com a possibilidade de mais rendimentos e impedindo o desenvolvimento saudável do mercado de livros infantis. Deveríamos deixar a qualidade de um livro falar por si, em vez de perseguir cegamente autores famosos e permitir vendas deste género nos espaços escolares.»
Esta iniciativa criada pela Biblioteca Infantil de Shenzhen, e rapidamente adoptada por várias outras instituições ligadas ao livro e à leitura, pode ser uma etapa significativa no combate ao modelo de vendas predominante. Na escolha de Os Meus Livros Infantis Favoritos, as vozes dos leitores mais novos são ouvidas, mesmo que as opções disponíveis se limitem a uma escolha relativamente pequena de livros. A partir daqui, os jovens leitores podem contactar com outro tipo de livros, cuja mediação não passa pelo interesse comercial, mas por uma escolha elaborada por leitores especializados. É um modo possível de valorizar conteúdos de alta qualidade, com outras potencialidades de leitura que não as trazidas pela fama, o que talvez abra algum espaço para motivar criadores chineses de livros infantis com outras abordagens literárias, gráficas e plásticas àquilo a que chamamos livro infantil.

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