Crónica

Escrita na Brisa (Yao Feng)

20 Anos

Nos vinte anos tornei-me a mim próprio numa região administrativa especial onde se aplica o princípio de “um homem duas vidas”;

Nos vinte anos fiz muitas viagens pelo mundo para ser mais enraizado na terra de partida;

Nos vinte anos mudei de vários endereços mas continuo preso no meu número do BIR;

Nos vinte anos percebi porque é que algumas árvores não dão frutos e outras dão, mas não posso gostar de todos os frutos dados;

Nos vinte anos continuo a conjugar intensamente o verbo amar, mas ainda dou erros;

Nos vinte anos sinto-me grato por Deus mesmo que nunca me chegue com um remédio santo;

Nos vinte anos fui convidado para ir a muitos banquetes da memória e do olvido;

Nos vinte anos fiquei com uma parte de mim mais de mim e com outra parte de mim menos de mim;

Nos vinte anos sinto sempre a justiça do tempo pelo rosto, porque todos os rostos, mesmo bem maquilhados, ficam mais envelhecidos;

Nos vinte anos não paro de desenhar o vazio com o pleno e o pleno com o vazio;

Nos vinte anos nunca choro, porque a água da fonte interior não é escrava da lágrima;

Nos vinte anos nutri cumplicidade com alguns poetas, mas também me afastei definitivamente de outros;

E no último dia dos vinte anos prevejo os próximos vinte anos, que irão ser inaugurados com o sol nascente de amanhã.

19-12-2019

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