Editorial

Editorial #51

Por Sara Figueiredo Costa

Para que servem os livros?, perguntam os utilitaristas de voz clarividente, apontando as tragédias, as necessidades, as imensas contradições que nos definem a existência diariamente. Se há fome para apaziguar e guerras para travar, se há epidemias que se espalham pelo mundo, para quê perder tempo com livros? Podemos responder que não servem para nada, claro. Perante as nossas necessidades básicas, a biologia escolhe a sobrevivência e tudo o resto é acessório. O detalhe é que talvez tudo o resto seja aquilo que faz de nós seres humanos, os mesmos seres humanos que contaram histórias uns aos outros nas trincheiras, que usaram a ironia lapidar contra ditaduras, que traficaram livros entre as grades das prisões, que souberam lembrar poemas, narrativas e até anedotas por entre o horror dos campos de concentração. Melhor não abandonar os livros, então, e talvez lembrar Sócrates e o episódio antes da cicuta. Diz a lenda que o filósofo terá pedido para lhe ensinarem a tocar uma certa ária na flauta antes de morrer e quando lhe perguntaram para que queria aprender uma ária na flauta, se ia morrer, esse sábio de barbas que chegou até nós por causa dos livros terá respondido: «para aprender a tocar uma ária na flauta antes de morrer». O jovem cuja fotografia se espalhou pela internet, que lê o livro de Francis Fukuyama numa cama de hospital, não estará perto da morte, felizmente, e será um dos muitos pacientes a recuperar do COVID-19 que se espalhou pelo mundo a partir de Wuhan, na província de Hubei, mas também ele parece saber que o utilitarismo não serve para grande coisa. Lemos porque somos animais narrativos, porque temos linguagem, porque precisamos disso para sermos mais do que carne, nervos e determinismo biológico.

Para além dos livros que escolhemos para pensar esta epidemia de outros modos, há mais para ler nesta edição. Fernando Sobral tem um novo romance cuja acção decorre em Macau, em 1937, e com ele conversámos sobre a arte do folhetim e a transformação da história em literatura. O Instituto Politécnico de Macau publicou um volume dedicado a Camilo Pessanha, comemorando os 150 anos do seu nascimento, livro que destacamos na secção crítica, com tempo para ler calmamente cada um dos ensaios que o compõem.
Continuaremos a ler, portanto, mesmo com uma epidemia a espalhar-se pelo mundo. E se isso não nos salva de nenhum vírus, salvar-nos-á do vazio, pelo menos, o que não é pouco.

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