Entrevista

Poder e ruína nos meandros da história – Entrevista com Fernando Sobral

por Sara Figueiredo Costa (fotografias de Eduardo Martins)

 

Acaba de chegar às livrarias A Grande Dama do Chá (Arranha-Céus), o novo romance de Fernando Sobral que tem Macau e a guerra entre a China e o Japão como pano de fundo. Conversámos com o autor durante as Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde o livro foi apresentado.

Este romance nasce como um folhetim, publicado semanalmente no jornal Hoje Macau. Foi pensado em episódios, desde o início, ou foi escrito como um romance e depois “partido” para se ir publicando semanalmente?

Isto nasceu de uma conversa, de um desafio, que surgiu entre o Carlos Morais José, eu e o João Paulo Cotrim, e a ideia era recuperar a velha moda dos folhetins do século XIX. Acabou por ser escrito quase semana a semana. Nunca houve aquele espírito de ter tudo quase feito e depois ir ao talho, digamos assim, e cortar em postas. Foi um desafio, ter de reflectir todas as semanas sobre o que ia fazer, o que obrigou a um exercício de contenção, por um lado, porque havia um espaço que não era possível ultrapassar, e por outro o próprio exercício de manutenção, que me obrigava a ter de escrever todas as semanas. No fundo, talvez não seja muito diferente do que eu fazia no jornalismo, em que todos os dias tinha de escrever uma determinada coisa, e aqui tive de criar uma rotina, também.

Nos teus romances já visitaste vários cenários históricos ambientados em Macau e agora escolheste a guerra com o Japão e também a guerra civil, com destaque para o papel de Shanghai e a sua relação com Macau. O que é que te chamou para este período em particular?

Queria tentar perceber algumas coisas, não falando do período em que há e não há uma ocupação japonesa de Macau, ou seja, indo um bocadinho atrás. No fundo, como aconteceu em toda a Ásia, o Japão começa a criar uma teia de interesses para que, quando surgisse a guerra, eles estivessem instalados através de pseudo-lógicas comerciais, escritórios de importação e exportação… E isto também tem a ver com outra coisa, que ainda estou a magicar, que é a relação entre Portugal e o Japão por causa de Macau. Hoje ainda não há uma doutrina sobre o assunto, sobre porque é que o Japão não ocupou militarmente Macau de uma forma efectiva, e há ali aquele jogo de sombras em que todos fazem o papel de que isto ainda é soberania portuguesa, mas por outro lado não podemos fazer nada se o Japão não autorizar, a completa separação entre o poder de Lisboa e o poder de Macau. E também tem a ver com uma coisa que não está muito estudada, que é a grande importância de Lisboa como grande centro de espionagem japonesa durante a II Guerra. Tenho recolhido algum material sobre o assunto e é extremamente interessante. Falamos muito dos ingleses e dos nazis que andaram por Lisboa, mas os japoneses tiveram em Lisboa uma importância muito grande. Todo este enquadramento é uma coisa sobre a qual ainda não há muitas certezas históricas. E não deixa de ser uma coisa tipicamente portuguesa, esta de estar bem com Deus e com o diabo e até com os anjos que não se sabe muito bem quem são… Tudo isso me fascina e acabei por ir para 1937, quando Shanghai já está ocupada e há guerra à volta de Macau e de Hong Kong. Macau começa a ficar desconfortável e há muita gente a achar que nada vai chegar aqui.

Fernando Sobral
A Grande Dama do Chá
Arranha-Céus

Os teus romances têm sempre uma série de camadas. Talvez possamos dizer que duas delas são os períodos históricos identificáveis e uma certa ideia, muito trabalhada na narrativa, de acção, aventura, mistério, intrigas. São estes os gatilhos fundamentais para a escrita?

Gosto muito do chamado jogo de sombras e esse jogo está em alguns dos autores que sempre me fascinaram – do Joseph Conrad ao John Le Carré, passando por Graham Green – com a ideia de que não há preto e branco, há muitos cinzentos. Isto acaba por ser o pano de fundo que eu normalmente aplico a grande parte das coisas que escrevo. Há sempre ali algo que não sabemos muito bem o que é e é um pano de fundo comum aos meus romances. Isso permite criar um amparo para tudo o resto que me interessa, ou seja, o legado dos portugueses no mundo, as contradições de Portugal, a lógica da sobrevivência. É esse jogo que me interessa e é isso que procuro trazer para os meus livros.

A tua escrita parece assentar na recusa permanente do maniqueísmo. Essa forma de ver as coisas tem a ver com a tua formação jornalística?

Creio que sim, com a minha formação não só jornalística, também na área do direito. Ao longo destas sucessivas vidas diferentes, uma coisa que sempre me fascinou foi o poder, não por querer alcançá-lo, mas antes tocá-lo e fugir. E isso acaba por ser a base a partir da qual escrevo, o modo como se exerce o poder, quais são as suas motivações. Como é que todo este sistema se move, é isso que me fascina, o poder como uma bola de cristal, mas que nos deixa conhecer apenas um bocadinho do passado, um bocadinho do presente e, presumivelmente, um bocadinho do futuro, mas sem certezas. E no meio disto tudo, a lógica sistemática de sobrevivência dos portugueses ao longo dos séculos, sempre à espera que o futuro resolvesse os problemas.

O papel dos portugueses fora de Portugal, nomeadamente na Ásia, e concretamente em Macau, é para ti um projecto literário?

Sim, muitos destes livros acabam por ser capítulos de uma história, não mais vasta, quem sou eu para dizer que estou aqui a fazer uma história mais vasta sobre o que quer que seja, mas digamos que há uma linha de ligação entre tudo isso, que eu vou tentando seguir. Por exemplo, porque é que os portugueses foram à descoberta do mundo, porque é que tivemos, por assim dizer, o mundo aos nossos pés e depois, passado uns séculos… Quando entramos no período dos descobrimentos, há um episódio fascinante que é o da Ilha dos Amores, n’Os Lusíadas, em que queremos ser deuses no lugar dos deuses. Durante mais ou menos um século, acreditámos nisso, depois, outros valores se levantaram e perdemos essa capacidade tecnológica, perdemos uma elite intelectual que tivemos em determinado momento… quer dizer, os descobrimentos não são obra do acaso. Toda a capacidade tecnológica e industrial passa para o norte da Europa e nós vamos ficando para trás e depois andamos aqui a gerir, a fingir que temos aqui um império, mas sempre com pés de barro.

É como se esse período expansionista não te fascinasse pelo lado saudosista que tanta gente alimenta, mas antes pelos ecos que tem no futuro e por tudo o que revela sobre as contradições humanas?

Exactamente. Parece que nunca conseguimos olhar de frente para uma questão muito simples: Portugal sempre foi um país pobre, exceptuando as elites, as pessoas sempre lutaram para sobreviver. Quando olhamos para as caravelas, quem são as primeiras camadas a embarcar? Quem estava na prisão, pessoas que vinham do interior a fugir da fome, e isso nunca mudou. Mesmo nos períodos em que a riqueza afluía a Portugal, nunca fomos capazes de capitalizar essa riqueza para criarmos uma estrutura de país. Não, torrávamos o dinheiro todo em coisas perfeitamente alucinadas. Por isso é que percebemos que a partir de certa altura vamos sempre na última carruagem. Acaba a pimenta, arranjamos o ouro do Brasil… e qualquer dia arranjamos outra coisa qualquer quando isto der para o torto.

Do ponto de vista literário, esse é um material inesgotável?

Sim, e fascinante. Se tivéssemos a sorte de andar por cá uns 150 anos, talvez pudesse escrever algo mais extenso, mas como isso não acontecerá, terei de me contentar com coisas mais concretas. E Macau, nesse aspecto, é um microclima que permite observar tudo isso e escrever à volta de todas estas coisas.

Há, neste livro, várias passagens que reflectem sobre as relações entre aquilo a que chamamos Ocidente e aquilo a que chamamos Oriente. Encenar estas relações na literatura, com toda a liberdade inerente permite ter outros ângulos sobre a história, talvez menos simplistas?

Sim, penso que é muito interessante esta relação entre o Ocidente e o Oriente. É muito curioso ver que nas últimas décadas o Ocidente começou a ter um fascínio pelo Oriente e agora, mais recentemente, o Oriente parece desprezar o seu conhecimento passado para ficar fascinado pelo consumo ocidental. Tudo isto é interessante, porque tem a ver com uma lógica de comércio que começa na grande Rota da Seda, de cruzamento de culturas – que o comércio permite fazer –, e também com os descobrimentos, que foram primeiro que tudo uma missão comercial, e mesmo que depois se fale em fé e noutras coisas, continuaram a sê-lo acima de tudo. Esta interligação é muito interessante, ver como se cruzam as ideias, o comércio, e há uma relação muito flexível. Isto permite-nos ver também a própria evolução da China, enquanto império fechado ou mais aberto, a sua relação com os povos ocidentais, a forma como conseguimos estar 500 anos em Macau fazendo um jogo de sapateado fascinante, usando métodos que os ingleses não usaram, mas por outro lado, este fascínio entre Portugal e o Oriente, e até acho que Portugal tinha um fascínio maior pela Índia, porque Macau era quase o último entreposto, se exceptuarmos Timor. As relações entre Portugal e Macau são sempre escassas, os portugueses estão lá, e tal, e quem lá está que resolva os problemas. Esta relação nem sempre fácil é fascinante e é interessante vermos que nunca desenvolvemos uma estrutura, como a que os ingleses fizeram em Hong Kong, a falar inglês, connosco foi sempre um bocadinho… vivemos aqui no nosso mundo, não nos chateamos com os chineses nem eles connosco, temos uma convivência pacífica, e está tudo resolvido. Esta mistura cultural é extremamente interessante para analisar a relação que Portugal sempre teve em termos coloniais, chamemos-lhe assim, e para perceber Portugal e a sua história. Não é por acaso que nunca se falou tanto português em Macau como se fala hoje, com tanta gente a estudar português… Tivemos uma possibilidade de criar ali uma escola, mas quantos portugueses aprenderam a falar mandarim ou cantonês, mesmo para os negócios com a China? Estas idiossincrasias são fascinantes e revelam muito, também sobre Portugal.

Como é o processo de transformar personagens históricas, como é o caso de Du Yuesheng, líder do Bando Verde, em personagens literárias?

O caso concreto do Du Yuesheng, que tem de fugir de Shanghai, presumivelmente nunca terá estado em Macau. Mas isto acaba por ser aquela lógica de na ficção podermos colocar as personagens onde quisermos. Procuro estar bem enquadrado sobre quem era a personagem, e li bastante sobre esta, em particular, para ter o acesso possível ao seu modo de pensar. Isso dá-me prazer, porque normalmente temos a lógica da inacessibilidade do poder, mas os poderosos são pessoas como as outras, podem tentar esconder tudo, mas há um momento em que as máscaras caem.

Vais regressar a Macau, na ficção?

Neste momento, tenho na cabeça dois livros, sendo um a continuação do outro. Um é passado em Macau, outro em Lisboa, com o personagem que está em Macau a ir, depois, para Lisboa. Ainda não sei qual vou escrever primeiro, embora saiba perfeitamente o enquadramento dos dois. A época será 1924, 25, com Lisboa no período pré-golpe de estado, com tudo a ruir, e com um antecedente em Macau. Ainda tenho coisas para resolver, mas será isso.

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