Crítica

Um enigma de barbas

por Hélder Beja

Pessanha o jurista, Pessanha o cidadão participativo e patriótico, Pessanha o alquimista da língua, o poeta da ausência e da despertença, o sinólogo, o contista, o pretenso orientalista, o inspirador de outros autores e escritos, Pessanha o transgressor. É assim, em muitas das suas facetas, que o volume Camilo Pessanha – Novas Interrogações, publicado pelo Instituto Politécnico de Macau em resultado de um encontro de investigadores ali realizado, assinala os 150 anos do nascimento daquele que é considerado um dos maiores poetas de Macau. O volume, coordenado por Carlos Ascenso André e Sara Augusto, conta com onze textos de diferentes autores.

Camilo Pessanha (1867-1926) e os Outros. Aspectos da dimensão colectiva da vida de Camilo Pessanha em Macau (1894-1926)” é uma interessante reflexão de Tereza Sena que privilegia a normalidade e não a singularidade de Pessanha, sempre em busca do “homem comum que também foi”. A investigadora traça um breve retrato da presença de Camilo Pessanha em Macau, desde que chegou em 1894, com 26 anos, até à sua morte nesta cidade, a 1 de Março de 1926, com 58 anos. Nele descobrimos que, para lá da “cultivada misantropia”, Pessanha foi um “empenhado defensor de um projecto nacional para Macau” e um republicano apaixonado. Revelando-se aos olhos de Sena como “muito mais do que o poeta, abúlico, opiómano e atormentado exilado”, Pessanha participou num sem fim de iniciativas cívicas em Macau, das quais merece destaque a reabilitação da figura controversa do Coronel Vicente Nicolau Mesquita (1818-1880). Para quem esteja menos familiarizado com a vida do poeta, será porventura surpreendente o patriotismo de Pessanha e a importância dada aos símbolos nacionais portugueses. Pessanha, que não se escusava a assumir que integrava “a obscura legião dos que andamos cá por fora a ganhar a vida”, tinha uma forte relação com as esferas de poder – como jurista, pedagogo, orador. Recebeu condecorações do Estado português e a doou a sua colecção de arte chinesa a Portugal. O aspecto mais curioso do artigo de Tereza Sena é a análise que faz da pose visual de Pessanha, de uma certa teatralização, daquilo a que a autora chama a “mensagem fotográfica” do indivíduo. Diz Sena: “Sempre me intrigou a aparente contradição entre o aprumo e a elegância por vezes espelhada nos seus retratos (…) e os testemunhos que apontam para um Camilo Pessanha desmazelado, sem gosto, e, mais do que isso, negligente na, ou até avesso, à sua higiene pessoal”, notando que antes de si já outros autores apontam este aspecto e consideram Pessanha um poseur ou dandy. A autora lembra que as fotografias eram à época uma “forma de auto-afirmação, individual ou colectiva”, e também um “instrumento de representação a partir do qual o homem comum passa a poder perenizar”. Para Tereza Sena, há ainda muito que descobrir na pose dos retratos de Pessanha e no modo como manipula ou teatraliza a sua imagem, na composição estética dos mesmos e, também, nos seus destinatários – já que era costume oferecer-se retratos. As dedicatórias e a escrita epistolar que aí se pode encontrar devem igualmente merecer atenção.

Um certo exílio

Se Tereza Sena tenta “reconstituir Pessanha à dinâmica da própria vida”, Carlos Ascenso André, em “Contradições do Sentimento de Ausência em Camilo Pessanha”, põe em xeque a premissa de que Camilo Pessanha foi um exilado que penou com tal condição. Pessanha, então, “não chinês e talvez já não português, como uma espécie de cidadão de terra de ninguém”. “Eis como o instinto português, afeiçoado à saudade e às suas desventuras, tende a ver o poeta”, refere André. O autor lembra ser comum apontar-se “o seu sentimento de degredo, o seu mal de ausência, a sua nostalgia do Portugal distante” para definir Pessanha. A hipótese de ter rumado a Macau por males de amor, não correspondido nos afectos por Ana de Castro Osório, é, diz, uma “interpretação confortável e que quadra bem ao espírito português”. Mas se uma leitura mais superficial da obra de Pessanha e particularmente da Clepsydra pode não revelar de imediato o poeta marcado pelas dores de ausência, é possível encontrar “disfarçados sob o manto denso da linguagem metafórica” os topoi da poesia de exílio, “regularmente presentes ao longo da obra, assim demonstrando que Camilo Pessanha não ficou imune ao mal de ausência”. Carlos André recua então aos clássicos, a Homero e a Ovídeo, para olhar a literatura de exílio. Elenca os topoideste tipo de literatura: o apego ao momento do adeus, o tempo como fonte de dor e solidão, a doença e a morte que se confunde com o desterro, entre outros. Luís de Camões, nota, foi o primeiro seguidor de Ovídeo e dessa casta de exilados na literatura portuguesa. Seguiram-se Padre António Vieira, Marquesa de Alorna, Filinto Elísio, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Manuel Alegre. André mostra depois, através de uma depurada análise da poesia de Pessanha, onde podemos encontrar o ritual da partida e do adeus; o pranto; o medo de ser esquecido, a dor de recordar o passado, o desfalecimento do exilado, a perda progressiva da identidade, a insistente evocação da morte – o exilado “deseja a morte, como libertação, mas teme a morte, como condenação”, escreve. É aliás a morte, diz o autor, o topoi da literatura de exílio mais visível na poesia de Camilo Pessanha. Ainda assim, e porque os poemas analisados por André são uma pequena parte da obra de Pessanha, conclui-se que “não é inequívoco que Camilo Pessanha tenha sentido as agruras da ausência e de tais supostas dores tenha nutrido o seu fazer poético”.

O Pessanha de Agustina

Poesia e mito: a propósito de Pessanha no espelho de Agustina Bessa Luís” é o título do artigo em que Vera Borges discorre sobre as aparições quase fantasmagóricas de Camilo Pessanha n’“A Quinta Essência”, de Agustina Bessa-Luís. Seguindo as diatribes do protagonista, José Carlos Santos Pastor, vagamente aparentado com Pessanha, Vera Borges varre o labiríntico romance de Agustina – que toma como mapa “Sonho do Pavilhão Vermelho”, de Cao Xueqin – em busca de referências a Pessanha.

Explanando o modo como José Carlos se desdobra nas personagens históricas de Matteo Ricci e Camilo Pessanha, Borges nota que Agustina simpatiza claramente mais com a figura e o percurso de Ricci que com o poeta de “Clepsydra”. A mimetização entre José Carlos e Camilo Pessanha, nos afazeres, nas fixações, nos hábitos, comporta uma “mitificação negativa” de Pessanha. Há uma transformação física e “quase caricatural” do protagonista para se assemelhar à imagem que temos do poeta. Por outro lado, Borges nota que o fascínio de Pessanha pelo outro e pela cultura do outro, fazem com que o poeta exerça um irremediável fascínio sobre Agustina.

Com o conhecimento da civilização chinesa a ser colocado no centro do labirinto de “A Quinta Essência”, Vera Borges dá conta de um jogo de espelhos em que a civilização colonizada se impõe sobre a colonizadora, “até na desfiguração dos seus rostos, apagando-se a sua identidade original”.

Os olhos como frinchas – assim os descreve Agustina quando retrata personagens chinesas – são considerados por Vera Borges como habitual instrumento de distanciamento e até desumanização do outro, uma tipificação negativa recorrente do asiático na literatura ocidental. No caso de Agustina, porém, a autora interpreta-o mais como uma imagem sobre a “dificuldade de penetrar ou desvelar a essência dessa mente oriental, por parte de um sujeito ocidental”.

Vera Borges destaca ainda a aproximação de Pessanha à poesia chinesa, em afinidade com Ezra Pound. Sobre o modo como a imagem do poeta tem sido definida a posteriori, a investigadora alega que “na poesia há uma espécie de apelo à efabulação mítica em torno da instância autoral sempre que isso seja possível”

Outros artigos deste volume, nos quais aqui não nos demoramos por natural falta de espaço, são igualmente interessantes para conhecer ou perceber melhor Camilo Pessanha. Celina Veiga de Oliveira, em “Camilo Pessanha – Jurista em Macau”, dá conta de alguns casos em que este interveio como advogado, ficando bem patente a sua capacidade argumentativa. Numa abordagem mais teórica, Isabel Margarida Duarte apresenta “Apontamentos linguísticos sobre a poesia de Camilo Pessanha: ‘simples imagens, miragens, sonhos transitórios’”. Em “Espelho Inútil: a missão impossível da Clepsidra”, Sara Augusto parte da tradução de um poema chinês, “Legenda budista”, feita por Pessanha, e do interesse do poeta por conceitos como “vazio” e “limpidez”. José Carlos Seabra Pereira discorre sobre a “Estética da sugestão e tradição chinesa em Camilo Pessanha – um potencial esotérico”, enquanto Vânia Rego se debruça sobre o Pessanha narrador em “O que contam os contos de Camilo Pessanha?”. Duarte Drumond Braga analisa um conhecido prefácio de Camilo Pessanha ao livro “Esboço Crítico da Civilização Chinesa”, de Morais Palha, para a partir de Edward Said indagar sobre o pretenso orientalismo do poeta. Dora Nunes Gago colhe “‘Crisântemos amarelos para o Mestre’: ressonâncias intertextuais de Camilo Pessanha em Eugénio de Andrade e Fernanda Dias”. E, finalmente, Izabela Leal discorre sobre “Camilo Pessanha: a poesia e o direito ao crime”.

Na multitude de esferas em que se moveu, Pessanha permanece de alguma maneira como enigma indecifrável – sendo que uma possível solução é não haver rigorosamente nada para decifrar. Agustina Bessa-Luís sintetiza-o: “Era um homem perdido até para o génio que tinha”.

 

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