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A China em verso livre

por Sara Figueiredo Costa

Poética Não Oficial junta 33 poetas chineses contemporâneos num volume bilingue, com organização e tradução para português de Sara F. Costa, com quem falámos a propósito desta edição.

Sara F. Costa, tradutora da antologia

Traduz-se muito pouca literatura chinesa para português. A escassez de tradutores habilitados em ambas as línguas e sensíveis às minudências do discurso literário explicará a situação, mas não resolve este lapso que afasta os leitores de uma produção tão rica como a chinesa. A mais recente edição a contribuir para colmatar este afastamento é uma antologia de poesia que reúne autores do período moderno e contemporâneo. Publicada em Portugal pela editora Labirinto, Poética Não Oficial – Poesia Chinesa Contemporânea resulta de uma escolha feita por Sara F. Costa, que também assumiu a tarefa da tradução (e aqui impõe-se uma nota, para asseverar que a quase coincidência do nome da tradutora com o de quem assina este artigo é apenas isso, uma coincidência).

São 33 poetas, cada um representado com dois ou três poemas. E são poetas de várias gerações, ao contrário do que é comum em antologias que referem algum aspecto de ordem temporal no seu título. Há autores nascidos no fim do século XIX, como Chen Yinmo, e outros nos anos 70 e 80 deste século, como Zuo Fei, Dou Yu ou Liu Dong Ling. Alguns já falecidos, outros sem livros publicados há décadas e outros, ainda, com publicação recente e reincidente. A disparidade cronológica que salta à vista quando se consultam as notas biográficas, devidamente incluídas no fim do volume, perde relevância quando atentamos noutros ritmos do tempo, mais amplos e menos dados à compartimentação com que no Ocidente se fundam e extinguem movimentos literários ou artísticos. Como explica Sara F. Costa, «tendo em conta que a Revolução Cultural na China acontece entre 1948 e 1952, todos os poetas são poetas da pós-revolução, apesar da diferença de algumas décadas entre alguns deles. Essa é, de facto, a única linha cronológica tida em conta neste trabalho. Contudo, não é um trabalho que esteja muito ancorado ao factor cronológico. Há, de facto, uma temporalidade mas ela relaciona-se mais com um trauma colectivo. Inicialmente, pensei mesmo em traduzir apenas a novíssima poesia chinesa mas apercebi-me que muitos dos poetas contemporâneos amplamente conhecidos na China não tinham nenhuma tradução para outras línguas. Achei que era uma boa oportunidade de lhes dar uma voz estrangeira. O principal objetivo foi captar uma amostra do panorama poético contemporâneo chinês.»

VVAA (organização de Sara F. Costa)// Poética Não Oficial// Editora Labirinto

O título recupera uma expressão nascida no período da Revolução Cultural, quando vários poetas começaram a cultivar um modo de escrever que procurava contrariar uma certa ideia de poesia oficial, institucional, onde os temas possíveis e o modo de os declinar obedeciam a um cânone pré-definido. Para um leitor menos conhecedor dos estudos literários chineses, poderá ser um título que remeta para uma poética profundamente definida pela política, por uma ideia de oposição aberta, de modificação das estruturas sociais. A leitura dos poemas contraria, no entanto, essa ideia, pelo menos em parte. As referências notoriamente políticas existem, sim, mas quase sempre apresentadas através de recursos estilísticos que as complexificam. E existe sobretudo uma recusa de velhos modos de uso da linguagem poética, uma procura activa por outras formas de a cultivar. «É, de facto, um recusa de integração dos valores estéticos oficiais mas é também uma recusa de transmitir as mensagens que a poesia oficial impõe», explica a tradutora. «Por isso, há uma combinação de diferentes intencionalidades. Alguns poemas são abertamente políticos, é o caso de alguns poemas de Hai Zi, Zhang Zao, Bei Dao, Xi Chuan, outro são também políticos não no aspeto de fazerem uma sátira direta ao partido mas pela utilização de elementos proibidos. Pensemos, por exemplo, na poesia de Zuo Fei, de forte pendor católico. É uma oposição aos valores institucionais de outra forma, mas não deixa de ser uma afronta. Outros poemas são políticos através de “códigos” conhecidos na poesia chinesa contemporânea como a metáfora de “noite escura” para se referir ao período da revolução cultural. Os cisnes, a noite, os morcegos. Todos esses elementos são políticos.»

Tradição e ruptura
Como todas as grandes irrupções literárias, independentemente do seu teor programático ou da sua afirmação enquanto movimento organizado, esta nova poesia que começa a despontar na segunda metade do século passado não parte de um grau zero. A vontade de quebrar lógicas temáticas e gramáticas presentes na poesia que se escrevia e publicava na época não afastou cabalmente o diálogo com a tradição. Talvez nem o pudesse fazer, sobretudo num país onde a poesia sempre teve pergaminhos elevados e uma história, conhecida e cultivada, de muitos séculos.

Nos versos destes 33 poetas percebe-se sem margem para dúvidas a verve inovadora, a procura por cadências, prosódias e temáticas que almejam fundar uma outra linguagem, mas percebe-se igualmente o peso e a importância da herança poética chinesa, nomeadamente a do seu período clássico. É uma longa linhagem de história poética que não deixa de persistir nas múltiplas vozes destes autores, como confirma Sara F. Costa, exemplificando aspectos dessa persistência: «Continuamos a manter o ritmo, a imagética sofisticada, muitos conceitos taoistas nas metáforas sobre silêncio, vazio, contemplação estóica, a relação alegórica entre o natural e o humano e as reflexões sobre destino e poder – tudo características já encontradas até antes da época de ouro da poesia chinesa, a dinastia Tang. A relação entre política e poesia na China é também uma conexão ancestral. Desde Qu Yuan, passando pelo poeta imperador Li Yu e os inúmeros estadistas que eram poetas durante a Dinastia Tang, como Yuan Zhen, até porque o acesso ao poder era feito através dos conhecidos exames confucianos que avaliavam, entre outras coisas, a capacidade de escrever poesia.»

A reverência por velhas formas e imagens poéticas não impede a profunda vontade de inovação. E ao lado dos ecos de uma tradição veneranda surgem os rasgos de muitas liberdades, do verso branco às aliterações definidas por ritmos contemporâneos. Surgem, igualmente, as muitas referências a um quotidiano profundamente actual, com a presença de títulos de filmes europeus ou americanos, a omnipresença do consumo (e do consumismo, como no poema “O bar de água do tigre azul”, de Bai Helin), temas e apropriações que remetem para uma ideia poética sem nada de clássico.«Se, por um lado, existe uma vontade confrontar valores tradicionais conservadores, existe, por outro, a vontade de preservar as tradições que são identitárias», confirma Sara F. Costa. «Muitos poetas incorporam um olhar crítico e irónico em relação à sociedade de consumo na qual a China se transformou e a forma como a sua própria identidade se torna mais difusa num mundo globalizado. Acredito que a integração de elementos estrangeiros do quotidiano ajuda também a reforçar o aspeto moderno destes poemas.»

Bei Dao, um dos poetas incluídos na antologia

O caso Bei Dao
De entre todos os poetas presentes nesta antologia, Bei Dao será o nome mais imediatamente reconhecível pela maioria dos leitores de língua portuguesa. Várias vezes apontado como provável vencedor do Prémio Nobel da Literatura, aclamado fundador do movimento dos Poetas Obscuros, Bei Dao está traduzido em várias línguas e tem no espaço editorial anglófono uma enorme presença, com vários livros traduzidos, contrastando com parte considerável da extensa produção poética chinesa. Ao domínio profundo da língua chinesa, trabalhada com elegância na sua prosódia, juntam os críticos a capacidade de manter um constante equilíbrio entre a tradição literária em que se insere e a assunção de uma voz cosmopolita, dialogante com outras tradições. Universal, portanto, como todos os grandes poetas.

Para Sara F. Costa, a fortuna crítica de Bei Dao fora da China explica-se também por motivos extra-literários: «A poesia de Bei Dao, de forte pendor activista, é considerada uma das inspirações dos protestos que se sucederam em Tiananmen, em 1989. Foi depois ter participado numa conferência em Berlim, onde falou do movimento pró-democracia com o qual estava envolvido, que Bei Dao foi forçado ao exílio. Ele viveu em muitos países. Só na Europa viveu no Reino Unido, Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda e França. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos. Sem dúvida que esta vivência um pouco nómada pode explicar a sua fama internacional. Por outro lado, Bei Dao, com a fundação do movimento dos Poetas Obscuros (朦胧诗人) e a criação da revista literária não-oficial Jintian (今天), disponibilizou algumas perspectivas críticas sobre o regime chinês que também interessavam ao Ocidente, fosse por honesta curiosidade intelectual ou por questões de propaganda política. É uma visão de dentro com uma elevada liberdade de expressão e isso é muito apelativo para o exterior.»

O poema “Resposta”, originalmente publicado em 1988 e agora incluído nesta antologia, circulou abundantemente nas redes sociais chinesas em Fevereiro deste ano, quando o surto de COVID-19 em Hubei era ainda uma miragem distante para o mundo, mas um problema de dimensões colossais a afectar a China e a merecer discussão pública, entre quarentenas, isolamentos de cidades e dúvidas sobre a transparência da comunicação das autoridades sobre o assunto. Nos seus versos finais, “São cinco mil anos de pictogramas/ é o olhar firme”, talvez se condense esta ambivalência entre assumir uma imensa linhagem poética e quebrar as amarras de ortodoxias canónicas.

 

AS VOLTAS DA TRADUÇÃO

As diferenças estruturais entre as línguas chinesa e portuguesa terão colocado desafios intensos para esta tradução, ainda para mais tratando-se de poesia, onde as exigências da métrica, do ritmo e da prosódia assumem um papel tão preponderante. Na introdução, refere-se a preferência por uma aproximação ao conteúdo (embora não literal), em detrimento de soluções que obrigassem a uma reescrita. Pedimos a Sara F. Costa alguns exemplos concretos destes desafios.

«Existe uma enorme diferença em traduzir entre línguas que partilham um alfabeto segmental e uma etimologia e traduzir entre línguas muito afastadas. Na área da tradução da poesia este é um desafio muito particular. A diferença entre uma língua que possui uma representação fonética e uma que possui uma representação fundamentalmente pictórica ou ideográfica faz com que, na essência, as duas línguas apenas se consigam aproximar e a tradução acabe por ser, em si mesma, uma forma de arte: a metamorfose possível entre realidades linguisticas.

Um exemplo de uma questão de tradução literal ou livre, de um poema de Hai Zi (com as hipóteses possíveis):

祖国,或以梦为马

Sonhar como um cavalo

Montar um sonho como um cavalo

Sonhar com cavalos

Sonhar em ser cavalo

Para mim, teve de haver aqui uma escolha literária. Na minha perspetiva, “sonhar em ser cavalo” serve melhor o propósito metafórico para um publico que lê português.

Outro exemplo, este de uma questão cultural (de um poema de Chen Yinmo):

霜风呼呼的吹着,
月光明明的照着。

我和一株顶高的树并排立着,
却没有靠着。

O vento sopra gelado.

A lua brilha intensa.

Eu fiquei por perto de uma árvore alta

mas sem me encostar.

Neste poema optei por uma tradição literal, no entanto, é difícil explicar a importância histórica das imagens simples da natureza, simultaneamente simples e intensas. E a conclusão taoista, que se assemelha muito ao nosso epicurismo ou estoicismo no seu valor de ‘desapego emocional’, sendo aqui o “não encostar-se” essa representação da distância. É um poema que, sozinho, talvez não consiga ser tão intenso para o leitor português, até porque os caracteres chineses dão uma dimensão visual que falta à nossa língua.»

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