Crítica

Vidas longe da vista

por Sara Figueiredo Costa

Catarina Gomes// Coisas de Loucos// Tinta da China

Este livro pode ter começado com a reportagem que levou Catarina Gomes ao Hospital Miguel Bombarda, em 2011, para acompanhar a saída dos últimos pacientes ali internados e sobre isso escrever no Público. A instituição lisboeta, hospital para doentes com problemas de saúde mental, encerrava as suas portas ao fim de 163 anos em funcionamento, primeiro como Hospital de Rilhafoles, depois como Miguel Bombarda, de Manicómio a Asilo Psiquiátrico e, enfim, a Hospital. Para trás ficava um edifício com alguns detalhes arquitectónicos marcantes, como o pavilhão panóptico onde se internavam os doentes considerados violentos, e muitos vestígios de uma história intensa e reveladora de outras histórias. Entre esses vestígios, estava uma caixa com uma série de objectos pertencentes a diferentes doentes, que acabaram ali onde costumam acabar os objectos velhos e sem dono. Dessa caixa, nasceram estes textos, alguns anteriormente publicados numa série do jornal Público, agora amplamente acrescentados e dotados da coerência e da lógica interna que asseguram o sentido de um livro. Este livro terá nascido, então, da curiosidade despertada pela visão dessa caixa cheia de objectos soltos, o espólio já desfeito de alguns dos pacientes que viveram na instituição em épocas diferentes. Dito assim, parece gesto puramente documental, mas Coisas de Loucos está muito longe de ser mero documento e talvez se possa acordar, depois da sua leitura, que este livro terá nascido sobretudo da empatia, porque é isso que atravessa os textos, a par com o rigor da pesquisa e a vontade de conhecer as histórias dos donos desses objectos nos seus ínfimos detalhes (e de as partilhar, mesmo questionando o possível despudor de o fazer).
A partir de objectos como cartas e documentos de identificação, mas também relógios, pincéis da barba, alfinetes ou chaves, a autora procura traçar os percursos de vida das pessoas que um dia os usaram no seu quotidiano. Antes disso, foi preciso começar por descobrir quem eram essas pessoas (e, em alguns casos, a mera existência dos objectos que deixaram para trás não permite identificações). No livro, são oito, homens e mulheres, nascidos em épocas diferentes. Alguns, talvez se tenham cruzado nas instalações do Miguel Bombarda, mas não sabemos.

Loucura é termo de definição imprecisa, não tanto pela coloquialidade, mas pelo rigor semântico que lhe falta – e que talvez sempre lhe falte. O conceito não é estanque nos sintomas nem no tempo. Com o avanço do conhecimento na área da psiquiatria, mas igualmente da psicologia e da neurociência, os sintomas refinaram-se e aquilo que séculos ou décadas atrás era loucura, hoje pode ser uma doença mental perfeitamente controlável ou um comportamento não-maioritário. A história da saúde mental e dos modos como se foi lidando com a sua falta é, aliás, ilustrativa disso mesmo e no livro de Catarina Gomes não faltam exemplos do que foi mudando. Há casos em que a doença levou ao encerramento involuntário de pessoas cujo problema se desconhecia, e se descrevia com vagas referências à falta de noção da realidade, e que hoje teriam à disposição medicamentos que lhes permitiriam viver as suas vidas sem ser entre as paredes de um hospital. Outros há que nasceram numa época em que qualquer expressão de género que escapasse à norma então vigente era sinónimo de loucura, levando-os ao internamento. Se há coisa que a saúde mental sabe é que alguém privado de liberdade, confinado num espaço, obrigado a co-habitar com pessoas por quem não sente afecto e constantemente tratado como louco tem fortes possibilidades de vir, de facto, a sofrer de doença mental. Foi assim com Valentim de Barros, uma das pessoas cuja história se conta neste livro, um bailarino que acabou hospitalizado e cujo diagnóstico indicava “efeminação” e “homossexualidade”. Este era o tempo em que a homossexualidade era, para além de crime, considerada uma patologia, uma das muitas que Egas Moniz acreditava poder tratar-se com a remoção de uma parte da massa cerebral, operação que lhe valeu o Nobel da Medicina. Valentim foi operado e, naturalmente, a sua sexualidade não mudou. Perante a evidência, assumiu-se que o que restava fazer era mantê-lo internado. É aterradora a história de Valentim de Barros, como é aterrador perceber como se tratavam as pessoas institucionalizadas por questões de doença mental até há não muito tempo.

A vertente histórica é, então, uma outra dimensão importante em Coisas de Loucos. As referências à história do Hospital Miguel Bombarda, aos relatórios médicos e à terapêutica faz-se a partir dos registos de cada uma das pessoas aqui apresentadas, mas sempre contextualizando de modo mais vasto, através de informações sobre os progressos médicos internacionais, as mudanças de paradigma na arquitectura associada à medicina, os dados sociais, económicos e culturais que ajudam a perceber o percurso destas pessoas e o modo como foram vistas por quem por elas se responsabilizou. Para além de uma espécie de ignorância científica que persistia em não reconhecer as subjectividades e individualidades daqueles e daquelas a quem se diagnosticavam problemas mentais, há descrições das condições de vida dentro deste hospital – que não seriam muito diferentes da de tantos outras instituições similares noutras partes do país e do mundo – que só podem envergonhar-nos, mesmo à distância de tantas décadas. A vertente histórica é importante, e neste livro temos pedaços essenciais da história dos séculos XIX e XX, cruzando temas que passam pela saúde, assistência social, arquitectura, arte, economia, diferenças sociais, mas o epicentro de Coisas de Loucos são as pessoas e as suas histórias. De um lado, a impossibilidade de as reconstruir por completo, a lembrar constantemente que talvez sobre pouco de nós, do outro, a urgência de acreditar que a incompletude não é necessariamente aniquiladora, porque, por pouco que sobre, alguma marca deixamos nos outros. Mesmo que esses outros estejam longe, no futuro, e só lhes cheguemos através de objectos sem préstimo esquecidos no sótão de um hospital, ou nalgum beco armadilhado da mente que sabemos já não controlar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s